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28 fevereiro, 2016

Meia luz

Na noite passada ficamos na cama
e depois de uma tarde cansada
o quarto ainda era prosa
misturada a uma intimidade poética.

Tirei minhas palavras
despir também é conversa
penetração é um tipo de olhar
que se experimenta e deseja.

Mas mais do que experimentar
ou desejar
certas coisas a gente não sabe
explicar.

Podia ser igual
mas foi diferente
em que parece que nada acontece
e tudo acontece de repente
poderíamos nos devorar
ficarmos nus num lençol
mas não
agora.

Um jeito de cuidar e sentir
ficar segura num abraço
e acordar num sorriso
com alguém olhando para você.

26 fevereiro, 2016

Por entre as matas

Respiração leve
outro momento
pés descalços
terra
pensamentos.

Gotas de sol
som da tribo
roda serena
dança da vida.

Caboclo que canta
envolta do fogo
índia que risca
o chão da fogueira
a tarde adormece
e a noite entra em cena
menina lua que aparece
e recebe as flores de alfazema.

Soltam-se flechas
Batem tambores
a festa está pronta
as frutas na roda
pintam-se os rostos
vibram-se os corpos
cachimbo, fumaça
limpam as dores
pajé se levanta
e chama cabocla
dos cabelos compridos
e de um espírito
completamente evoluído.

Hipócritas

Eu vejo bem
quanta gente critica a falta de amor
quanta gente diz que é preciso ser irmão
mas acontece que quase ninguém quer repartir o pão.

Eu escuto bem
quanta gente diz "seja solidário"
quanta gente fala que"o mundo precisa ser mais humanitário"
mas acontece que muita gente não quer ajudar o outro cenário.

Eu percebo bem
quanta gente anseia pela revolução
quanta gente quer que os oprimidos sejam união
mas acontece que muito revolucionário não tem uma grama de ação.

Eu sinto bem
quanta gente como ser humano é desumana
quanta gente coloca uma máscara e engana
quanta gente faz o mal mas não entra em cana.

25 fevereiro, 2016

A lua cheia me agrada
lâmpada acessa do quarto
parte especial da pintura
do teto, do nosso.

24 fevereiro, 2016

Art. 212, CP.

É impossível matar o morto
não se esforce tanto
tudo o que você faz
é apenas um vilipêndio
a cadáver.

Em defesa das crianças da periferia

Fiquei com a voz dele no meu ouvido
as palavras penetram de uma forma dolorida
certamente mais nele do que em mim
chora o peito.

Dignidade é uma coisa
que dependendo de sua classe econômica
você não a tem,
temos deveres, não temos direitos.

A rua está aí para todos
assim como o lixo, os ratos, os pombos
vejam as baratas pelas calçadas
e os restos de comida com larvas
na boca de gente que come a sobra da janta
de ontem, do outro. Carolina de Jesus bem sabe,
e ainda ouviu o filho perguntar se tinha mais.

O menino cá
falou em defesa de outros meninos
tão pequenos, tão maiores do que ele
são crianças entendendo tudo
sentindo o descaso que o Estado dá
e mesmo com pouca idade já compreenderam
que o oprimido precisa lutar.

São crianças que querem brincar
que querem um lar.
São crianças que perdem a infância
cedo demais.

Individualista

Aquele revolucionário
é muito teórico
ele fala do Marx
mas não enxerga o pobre
mas não está com o pobre
mas não faz pelo pobre.

Trabalhadores do mundo, uni-vos!
É só algo que ele repete
pois ele em si é um contraste
ficamos água e óleo.

Eu na ignorância de saber pouco
sendo um pouco de prática
Ele na inteligência de saber muito
parecendo uma estátua.

Falta de sabedoria e coletividade.


19 fevereiro, 2016

Joana

Moça do campo
da roça
da rosa
que colhe e canta
a história de um povo
que antes do sol se levanta
e com mãos e pés rachados
mais uma vez pegam na enxada
para arar a terra de sinhozinho
um cafeicultor que se enriquece
as custas do suor de tantos.

Moça do campo
este teu canto em prantos
tem coração
e braços cansados
de tamanha exploração.

17 fevereiro, 2016


Não ri mais quem ri por último
mas quem vê graça na poesia.

Parodiando Quintana

Todos estes que aí estão
atacando pedras em meu caminho
saibam que eu converso com o Drummond
enquanto vocês fofocam com o vizinho.

14 fevereiro, 2016

O tal do câncer é isso aí

Esse negócio de viver é todo dia
uma chance
tem gente que quase morre
de doença grave
e quando escapa
ao invés de se escutar um pouco mais
prefere ficar surda de vez.

Então não me culpe pela sua escolha
eu bem que tentei
mas esse troço de caixão
não é comigo.

Não estou para me anular
e nem para morrer antes do tempo
e até quando eu morrer
digo que ali terá vida
dispenso velórios
quero saraus.

O Coxo

O teatro para ele foi uma saída
havia me dito que essa ideia foi plantada
em sua mente ainda na adolescência 
contudo somente tomou coragem 
aos 35 anos de idade.

A arte o tocou de outra forma 
um jeito de lidar com o medo
inseguranças do passado 
talvez zombarias da escola - eu não sei!
mas ele manca um pouco
quase que não se percebe a sua poliomielite
e as botas ortopédicas.

Essa coisa de mancar um pouco 
ainda que despercebida
foi escancarada no palco 
com cicatriz grande e tudo 
num beijo em que ele apalpa 
os seios de uma mulher 
e sobe correndo as escadas 
apenas de cuecas
e à medida que ele corria
percebia-se que ele realmente mancava
era um coxo correndo de cuecas
ali naquela cena a sua liberdade.

O teatro para ele foi um remédio 
e uma solução de muitas coisas.

Há tempos

Reclamas dos quadros pregados nas paredes
do espaço que as estantes tomam lotadas de livros
de literatura e filosofia 
mas que me lembre nunca leras nenhum 
eu bem que recomendei como terapia
é como penetrar em outros mundos
conhecer...
enxergar de outra forma.

O violão precisa ficar escondido
e o sino dos ventos que ganhei de uma amiga
te incomoda em plena janela aberta
com o sol batendo aqui dentro e o vento 
levemente tocando aquele instrumento
é a natureza cantando
porém você não a sente, 
está como a maioria das pessoas 
“preocupadas em nascer e morrer”.

Poesia? Quem precisa de poesia?
Só os perdidos, os bandidos de rimas
os corações partidos cansados de escrever.

Tu não me conheces
mas enches a boca para falar de mim para outros
sem ao menos saber quem eu sou de verdade
como se os meus objetivos seguissem o padrão da sociedade
engana-te, senhora!

11 fevereiro, 2016

Visitá-los

Sendo sol
querendo
sentindo
e tantas coisas acontecendo
amanhecendo
anoitecendo.

Ora sol
ora lua
quantos mistérios
quanta beleza.