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23 fevereiro, 2014

Clarinha

Bebês adultos
Pequenas crianças
Deficiências no corpo
Grandezas na alma.

E tudo contenta
Desde uma visita
Um sorriso
Ou até mesmo uma nariz de palhaço.

- Alguém grita:
- Tia uma história!
- Tia fiz xixi!
- Tia vem aqui!

Crianças abandonadas
Crianças sem família
Vivem do amor do próximo
E nunca estão vazias.

Uma música é festa
Um bolo é alegria
Amarelinha vira bagunça
E pular corda é uma folia.

Mas quem não pode
Na cadeira fica
Aguardando por companhia
E logo alguém aparece
Para lhe dar cuidados
E modificar o seu dia.

Época Hipermoderna: Ctrl C e Ctrl V

Esqueçamos o  passado, neguemos a tudo- a nós mesmos, façamos do nosso presente sempre um futuro projeto que não terá fim. Foquemos neste nosso indeterminismo, desta vida em pedaços de gozos cretinos em liberdades enjauladas construídas por mentiras esfarrapadas.

Vamos irmãos,

Consumir até o último talo esta era de avanços tecnológicos em que num clique se tem tudo e noutro, não se tem mais nada. Proclamemos a inconstância do que nos servem, este alimento que nos reparte, que nos semeia individuais.

Festejemos aos laços frouxos, ao rápido conectar e desconectar das relações pessoais. Percamos as dimensões dos territórios, do mundo, da vida. Vivamos como inocentes no ciberespaço, viajando de um país ao outro num simples trocar de telas, extirpando as fronteiras, comprando e ofertando o que somos, num ato indireto e obrigatório de aprender inglês e falar francês para vender e apresentar os lucros que nos escravizam.

Não existe escolha! A agilidade engorda o cofre do forte, e os nossos sorrisos estão perdidos entre as línguas podres, as nossas conquistas não são nossas.

O mercado insiste na livre concorrência de qualquer coisa, ao ponto de nos transformarmos em coisas, produtos, já não somos homens e nem mulheres, e boa parte do movimento feminista de hoje já não prega igualdades a não ser disputa. Nos matamos entre ilusões e poder de barganha, não existe o social e muito menos o ser humano.

Vejo a reprodução de uma cópia se repetir mais cem vezes, a Monalisa já não é de da Vinci, quantas propagandas dela temos representando o padrão da estética atual? 
Vejo os lugares perderem a sua função, antes na farmácia apenas se comprava remédios e hoje nas prateleiras de medicamentos até camisola e sapato têm.

Estamos num eufemismo impróprio, do tipo: eu te empresto mil reais e você me paga parcelado em quarenta e oito vezes de cem reais. Especulação financeira não me parece suavizar nada. 

São vários trechos fragmentados que simplesmente eu poderia escrever, mas o que acontece é que já perdemos a nossa identidade, a moda é viver em superficialidade - sim, e de maneira completamente veloz!


"L I T E R A T U R A N D O"

Drummondando-se 
Fernandando-me 
Clariceando cá 
Mariando lá
Bandeirando aqui. 

Estou a Carpinejar
No meu Sabino Quental 
Colhendo orquiLygia Telles
Brincando de subir nos ipês com Rubem Alves
Para cair em Barros 
Até o entardecer de Beauvoir's
Que gostam de Dostoiévski 
Concordam em partes com Nietzsche
Riem mas também percebem a depressão de Bukowski
Bebem Kafka 
Beijam Bocage
Filosofam com Saramago 
E apaixonam-se pelos contos de um Machado.

Ahhh...que no final do dia Seu Vinícius me chama 
E a Florbela me Espanca. 

Mas eu fujo para os braços de um gentil Graciliano 
E por fim adormeço 
Para sonhar com Augusto dos Anjos 
E falar com Quintana.

20 fevereiro, 2014

Codicilo

Dou à luz
aos versos soltos e baratos
poucos talvez bonitos.

Eles ficam esquecidos
por entre os meus cadernos
nos blocos de notas
arquivos do Word
e às vezes rabiscados
dentro de algum livro qualquer.

-Mas isto
ninguém quer
não é?

Não vou deixar bens imóveis
e nem móveis
porque sei que depois do meu atestado de óbito
me tratarão como partilhas econômicas.

- Eu sei!

Como sei também
que não sou isto
e que a vida não me resume
e não
se dissolve nisto.

Vejo bem pela minha avó já falecida
brigas por causa dela ainda existem-
aliás pelas coisas dela;

discussões de quem fica como o quê
se com a casa
se com a conta bancária
se com o carro
se com os pertences de grande valor monetário

mas

os cadernos de receita ninguém quis
nem se quer as fotografias (pode?)
suas agendas repletas de segredos
de uma anciã inocente
e se eu deixasse
simplesmente agora estariam em putrefação
cheirando nada
morando no lixo
sendo esquecidos

porém

suas joias foram disputadas
pois eram de ouro e  prata
entretanto bijuterias sem grife
não foram assediadas.

No meu testamento
deixarei uma estante de livros
das mais variadas literaturas
e se quiserem
poderão doar para quem a queira.

Deixarei pensamentos simples
e outros complicados.
Vai ficar um punhado de textos incompletos e
mal escritos
mas
também terão alguns artigos
que talvez
quem sabe um dia
sejam bem reconhecidos.

Vou deixar umas tintas
com pincéis de longas datas
e sem marca
que registraram nas telas
desenhos estranhos
e outros
com paisagens rasuradas.

Também ficarão
velhos instrumentos musicais e
de baixo valor econômico

"e com certeza"

não irá faltar
uma imensidão de poesias.

Mas isto.
Bem, isto quase ninguém quer,
não é?!

- Eu sei!

15 fevereiro, 2014

...espelho, espelho meu

Espelho, espelho meu
Me digas se existe no mundo
Alguma mulher mais atrapalhada do que eu?

Espelho, espelho meu:

Olhe a letra que comi
A palavra que inverti
O sapato que esqueci
A blusa ao avesso que vesti.

Será que existe no mundo
Alguma mulher mais atrapalhada do que eu?

Espelho, espelho meu:

O tombo que levei
A comida no prato que caiu
A fila errada que entrei
Pro telefone incorreto que disquei.

Será que existe no mundo
Alguma mulher mais atrapalhada do que eu?

Espelho, espelho meu:

Não era para rir, mas gargalhei
Pediram silêncio e eu falei
Dei uma ideia e me ferrei
Coloquei o salto e tropecei.

Será que existe no mundo
Alguma mulher mais atrapalhada do que eu?

Espelho, espelho meu:

Deixei o bolo no forno até queimar
Entrei na contramão sem perceber
Mexi no chuveiro pra quase me eletrocutar
Afinei o violão pra piorar

Espelho, espelho meu
Me digas se existe no mundo
Alguma mulher mais atrapalhada do que eu?





Me perguntaram sobre ele

O amor não é mais um trago de cigarro ou algo que às vezes se usa para controlar a ansiedade do momento ou o tamanho do estrago.

Ele não é mais uma rodada de bebida quando se está mal.
Não é nada do tipo que te faça cair para esquecer da vida.

Não é fachada decorada,
nem teto rachado.
Não são frases que duram somente meia estação, e tampouco a ânsia de sentir quando já se sente, não é preciso mentir para enganar a mente.

O amor não acontece assim de repente,
feito ilusão ou paixão contente, demora e quando instala-se no coração
quase sempre vive eternamente,
como memória velha no presente,
feito um futuro que se pensa lentamente.

Esqueça o cinzeiro!

Bem ou Mal

Vou cantar minhas próprias músicas
Escrever minhas próprias letras
Cifrá-las do jeito que eu quiser
Olhando um cometa.

Se eu pintar torto
Se eu quiser fazer um morto
Eu fazer ao meu gosto
Eu vou rabiscar o meu rosto
Em cada parte de um todo.

Não vou pedir conselhos
Nem usar a roupa que não quero
Pego uma calça e mudo ela
Rasgo uma manga
Boto umas cores
E faço um aquarela.

Vou vestir minha própria marca
Estampar na minha testa
Rotulando em meus braços
Na minha perna
O que sou e o que quero.




09 fevereiro, 2014

A VIDA

Queria me pegar de jeito, eu não deixei, não podia, me segurei, controlei, mas ela tentava demais, sim, ficava excitando tudo com aquelas mãos em cada parte de mim, foi difícil negá-la, porém, neguei, parecia frágil em meus braços, mas a verdade é que eu era frágil perto dela.

Um dia destes ela teve a ousadia de vir aqui no meu ap. bater em minha porta, espiei pelo olho mágico, logo vi que era ela- essa maldita, estava lá com aquele vestidinho curto, vermelho, e que pernas, ai meu Deus- que pernas, tinha vontade de acabar com ela ali mesmo, naquele corredor do prédio, hamm....contudo,  o senhor aqui se continha sei lá do que, comecei a tremer, a suar frio, não sabia o que fazer, se abria ou não a porta, se ficava quieto na minha e deixava a campainha tocar, enfim, aqueles segundos tornaram-se eternos e esmagar o meu desejo era pior ainda, mas foi então que aquela "vagabunda" disse assim:

- Bemm....eeee, abre a porta, vamos lá, eu sei que você está ai, garotão!!
- Vamos meu bem, abra, quero te ver será que não entende?

Continuei em silêncio, não sabia o que dizer, estava quase borrando nas cuecas, e aquela voz doce me seduzia cada vez mais, deveria ser a voz do capeta, só poderia ser, tinha vontade de viver tudo aquilo, no entanto, a única coisa que eu sabia fazer naquele instante era ranger os dentes de muita raiva de mim, não conseguia, droga, inferno, cacete, a única coisa que eu fazia era travar ou enroscar em qualquer cena, as coisas aconteciam ali no palco, na minha frente, puta merda, mas eu só saia de cena.

A louca me perturbava a qualquer custo, a qualquer hora, estava chegando o momento de romper, ceder de vez, já não aguentava em mim, pensar nela me fazia arder, me fazia querer, e ela ficava ali batendo na minha porta, me chamando:

- Amor, vamos lá, abre a porta!

Eu tinha vontade de amar ela e ao mesmo tempo matá-la, eu queria morrer, contudo, ela insistia:

- Amor, você não me quer? não responde meus telefonemas, minhas mensagens pelo celular, nem os e-mails, eu venho aqui, te chamo e você fica ai fingindo que não vê, que não ouve? vamos, vamos lá, abre a porta, eu sei que você pode, sei que você quer.

Não aguentei, levantei daquele chão imundo de minha sala, fui até o banheiro, joguei uma água no rosto, olhei bem no espelho, fiquei ali parado pensando e perguntando pro meu eu:

- Você quer ou não quer cara?
- Sim, eu quero ela, quero muito, eu preciso dela em mim, aqui, agora!

Arrumei as calças, ajeitei a camisa um pouco amassada, passei as mãos pelos cabelos, respirei fundo, andei devagar e coloquei a mão na maçaneta da porta, comecei a rodá-la, suava frio a cada movimento que'u fazia, mas eu precisava fazer, era isto ou morte, suicídio. Ao destrancar e abrir, ela me agarrou com tanta força, pulou em mim, sorria intensamente, eu retribuía, mas não da mesma forma, de repente, ela começou a me beijar, dizia que me amava, que me queria, que queria entrar em mim, ficar em mim, e eu, sentia aquilo arrebentar todas as trancas, correntes, ou quase tudo, não aguentava mais este sufoco, agarrei ela ali mesmo na sala, segurei os seus cabelos, era um cheiro tão bom, e aquela pele de pêssego, tocar em sua face, nos seus lábios, nos teus seios, fiquei louco, ela me deixava assim: completamente doido!!

Ela dizia pra'eu relaxar, pra'eu me entregar, foi desabotoando minha camisa bem devagarzinho enquanto dizia coisas em meu ouvido, aqueles sussurros ouriçavam mais ainda, tirou minha camisa, passou a mão pelos meus ombros, aquelas unhas sem ferir causam sensações, arrepios gostosos,e eu, abaixei lentamente o zíper do vestido dela, a puxei para o meu quarto, fomos aos beijos, eram tão quentes que eu quase não chegava ao destino, pedi um momento, ela perguntou:

- O que foi meu amor?
- Espere, preciso pegar a camisinha!
- O quê?
- Sim, querida, preciso pegar a camisinha.
- Não precisa não!
- Por que, você se previne?Toma anticoncepcional ?
- Não!
- Então, vou pegar a camisinha, não tem jeito!
- Não, você não vai amor, vai fazer sem.
- Ficou louca?Bebeu ou o quê?
- Claro que não, pare de se prevenir sempre,pô...será que você chupa bala com o papel da embalagem? tem gosto por acaso? tem?você gosta disto?
- Maluca, você endoideceu , vem aqui na minha porta, insiste, você sabe que eu não aguento, e agora que chegamos no finalmente você simplesmente coloca tudo a perder com esse seu descuido.
- Descuido?pois bem, que seja, eu não me previno mesmo, é impossível se prevenir, será que você não compreende?
- Sai pra lá!
- Vem aqui, quero fazer amor com você, você quer fazer comigo, eu sei que quer.
- Quero, mas assim não dá.

Não teve jeito, aquela doida veio se atirando pra cima de mim, me pegando aos poucos, porém, fiquei tão puto com o que ela disse que a minha ação foi de empurrá-la, acabamos discutindo, ela me deu tapão na cara, bem na cara, ficou um vergão, peguei ela pelos braços, dei uma chacoalhada, chamei ela de louca e ela disse:

- Que é?vai bater em mim? Bate seu covarde, quero ver se você tem coragem de bater em você mesmo, você me nega, mas não entende que nega a ti mesmo, será que não vê seu idiota?
- Vai sua louca, sai daqui !
- Não saio, se quiser saia você.
- Hei, este local é meu, eu moro aqui, sai..., para de encher o meu saco, você me perturba, não entende?
- Olhe meu amor, quem não entende é você, se quiser sair nos tapas comigo, a gente sai, se quiser brigar, a gente briga, se quiser me odiar, me odeie, sim, odeie você mesmo e tudo o que faz, mas se quiser me amar, porra, ame!
- Você viaja, sabia? Que é, tá drogada?
- Como você é ignorante.
- Ignorante nada, vai... se veste logo.
-Não.Vou ficar do jeito que estou, quase nua!
- Ah quer saber, fique ai.
- Tá bem, meu bem!

Ela além de tudo é sarcástica, acho que gosta de me ver assim, ela gosta de me irritar, provocar, faz de propósito pra se sentir bem, eu sou um estupido mesmo, como fui cair nesta? Hamm....ainda me vem com essas ideias de gírico, é louca mesmo, só pode, como assim não se prevenir? Imagine só uma gravidez indesejada? uma doença venérea, me deus, eu sou um idiota, e o pior é que a quero muito, mas deste jeito não tem condição, e ainda me vem fazer comparações com a embalagem do papel de bala, ela só pode ter perdido o juízo.

- Amor, vem aqui, tô no quarto te esperando, vem logo, se quiser a gente fica quietinho, mas tem que ser aqui, pare de fugir.

Ai droga, eu não deveria ter aberto a maldita da porta, aliás, eu vou me mudar daqui, não quero vê-la nunca mais.

- Amor, será que eu vou ter que ir ai?não quero ficar assim!
- Me deixe, quero ficar sozinho.
- Ai credo, eu só queria que ficasse aqui, comigo, contigo mesmo, vemm...

Não vou responder, ela que fale sozinha.

- Vem amor, não quer uma massagem? Vem conversar comigo?
- Amor...

- Cala boca, eu não quero falar com você, vai embora daqui, some da minha vida!

Hamm...ela levantou, pelos barulhos dos passos acho que está está irritada, vai discutir comigo de novo e depois certamente vai embora, ainda bem, não dá, isto me mata.

- O que você disse?

- Isso mesmo que ouviu, não quero falar com você, vai embora!

- Como você é esperto né, acha mesmo que eu vou, escuta aqui, você sabe ao menos quem eu sou de verdade??

- Você? Bem, deve ser qualquer uma que dá pra qualquer um, louca por sexo, que não se previne, aquela que vai pra cama a qualquer momento com qualquer pessoa, que se insinua, ousada demais, você é ridícula. 

- Ahh...é, sou tudo isto mesmo? é por isto que eu não saio de sua porta não é? mas vamos lá espertalhão, o que mais eu sou em?

- Você não presta, só me fez mal, só me faz mal.

- Ah é??Tenho um solução pra você!

- Qual?que seja qualquer uma para não te ver nunca mais.

- Então, se mate!

- Tô quase, sabia?

- Vou perguntar mais uma vez: -Você sabe quem eu sou?

- Ai, chega, não tô a fim, vai embora.

- Só vou te falar um coisa, se eu for embora, você vai também, eu não uso camisinha mesmo, não faço tabelinha, não me alimento de coitos interrompidos como você às vezes faz, não utilizo anticoncepcional e nem pílula do dia seguinte e sabe por quê?

- Ah...tanto faz!

- Eu não evito o que é inevitável, me machuco mesmo e dai?eu vou me machucar, eu me frustro, me iludo, acordo, caiu, levanto, eu vou, eu faço, tento, e olhe você o que faz de tua vida, quando não percebes que eu sou a sua própria vida!

- Haha, sem dramas por favor, a vida é minha e eu faço o que eu quiser!

- Será que a vida é sua?oras se a única coisa que você faz é não vivê-la, preste atenção!

- Vai emboraaaa!!!

- Eu não preciso ir se você não vive, eu já fui!





04 fevereiro, 2014

VAGALUMES NO CÉU

A vida nos presenteia a todo instante, andando pelas ruas vejo uma flor no concreto, imensamente delicada, observo os contornos, seus detalhes, as cores que vibram de suas folhas junto ao contraste do cimento;  por entre as árvores alguns pássaros que cantarolam para o dia; o cachorro perto de mim abana o rabo; o bebê se diverte com o passageiro e; a brisa chega para espantar o calor. É preciso compreender o sorriso que chega até nós, é necessário enxergá-lo e não, cegá-lo. 

Olhei para o céu agora pouco, infelizmente grande parte dos humanos não olham para cima como deveriam, talvez eles não gostem de presentes celestiais, ou talvez a pressa para responder a mensagem no celular, a pressa para chegar em casa e a pressa para tantas outras coisas, não os deixem efetivamente perceber tamanha riqueza.

Hoje as estrelas resolveram convidar suas amigas- e quantas! Olhei para um canto, olhei para o outro, são tantas, parecem purpurinas que colamos num papel azul escuro, e se fitarmos os olhos nelas, aparecem outras que estavam quase ocultas, o brilho se espalha, vive a magia de quem sabe olhar, não é preciso contos de luar, olhe para cima e veja um outro tipo de lar. Ligo uma ponta prateada a outra ponta iluminada e o céu me cede uma forma, um desenho, e se não bastasse, alguém pintou a lua deste teto mágico, pintou como eu a vestia em minha infância: sempre amarela e com o fundo azul, e assim, tudo isto faz retomar a minha criança.  


02 fevereiro, 2014

"Quem conta um conto nem sempre aumenta um ponto"


-Nanã, quem é essa, essa que contempla o mal neste mês de outubro na noite de começo de lua minguante?

- Menina, essa coisa ruim é lá do Egito, mas quem mandou é daqui. Uma feiticeira!
- Uma feiticeira?
- Eu vi uma mulher suja, falando enrolado bem perto de mim,perto da minha cama pela madrugada, ela ria e falava.

- Era dialeto egípcio, foi enviado um encanto para você, mas não se assuste que sua luz ninguém apaga. Essa gente trabalha com forças sem conhecer direito, essa gente vive na lama acompanhada de entidades ruins, jogando baixo, invejando, querendo mal, gente que empobrece o espírito, que carece de amor, essa gente minha filha, precisa de muita luz.

- Mas Nanã, eu não entendo se nada fiz, se me afastei, eu nunca prejudiquei.
- Mas você representa perigo, menina.

- Claro que não, isto é uma grande bobagem, que fiquem bem, eu não desejo o mal. Não vou fazer o mesmo, não vou retribuir, eu não quero, não quero me sujar e contaminar os meus pensamentos, porque sabemos que tem retorno, mais cedo ou mais tarde, sempre tem.

- Mas ela não pensa assim menina, não consegue evoluir, impede o curso da natureza para conseguir o que quer, até consegue, no entanto, tudo tem um preço, tudo é cobrado e tudo volta da mesma forma que fizemos, nada escapa.

- Coitada, Nanã. Será que ela não consegue enxergar? Ela tem uma energia tão forte, e por que escolher usar assim? De verdade, eu não esperava isto dela, que decaísse tanto!
- Uma moça tão bonita, tão inteligente, não precisa disto Nanã.

- Minha filha, as pessoas ostentam sorrisos, mas a insegurança faz perder o controle, o melhor é se afastar, ela não tem boa companhia e nem intenções, gosta de rivalizar por vaidade, não existe amor ali, não vale a pena.

- Mas eu não quero brigar Nanã, meu Deus - que seja feliz, que cresça, que amadureça, eu não vou disputar, "nós seres humanos não somos objetos, somos livres e temos capacidade de construir a nossa alegria sem interferir, manipular ou obrigar a situação". Isto é muito pesado, na realidade, prejudica mais a ela do que a mim, a quem tanto tenta causar algum mal, sem necessidade, sem precisão, mas se ela quiser continuar nesta sujeirada, então, ela pode continuar, pois tenho minha proteção e meu discernimento.

- Me sinto bem Nanã, muito bem e amparada, em novos ares, mas façamos algo de bom pra'que essa moça saia da escuridão, e eu tenho certeza que um dia ela sairá e utilizará esta energia em prol do bem, muita gente precisa de ajuda Nanã, será que ela não vê ou não percebe que tem tanta gente do lado dela  precisando de apoio, de auxílio? Será que  prefere insistir neste ego mesquinho? Precisamos logo fazer algo para iluminar essa moça Nanã, ela precisa!

- Sim, menina, eu sei,  pegue a vela azul e...


"Sobre nascer e morrer"


Enquanto você morre outro nasce
É quase sempre um preparo 
Antes e depois do tempo

Veja a roupa do recém nascido 
Veja a roupa do falecido 

Olhe o berçário 
Olhe o caixão 

Perceba as lágrimas de felicidade 
Perceba as lágrimas de tristeza 

Corra para o hospital 
De repente um choro de vida 
De repente um choro de morte 

Às vezes uma gravidez indesejada 
Às vezes uma morte repentina 

O coração pulsa 
O sangue ferve 
O sangue corre enquanto está quente
Os pulmões recebem oxigênio 
Mas o corpo avisa também 
O sangue esfria

O novo que é carregado no colo e amamentado 
O velho que é carregado no colo e alimentado 

O novo que trocamos as fraldas 
O velho que colocamos as fraldas 

Parece um preparo 

Um preparo para quem chega 
Um preparo para quem vai.

Política com poesia


Ele fala de política
fala do povo
defende a mulher
direitos iguais.

Ele diz que vai divulgar
que vai trazer gente
que vai lutar.

Ele chama você
mas ele não escuta você.

Ele quer um debate
no entanto não discute
quer ideias novas
porém não responde.

O resultado tem que ser rápido
ele não coloca a mão na massa
caso tenha que trabalhar com sensações
mexer com sentimentos.

Ele é macho
desculpe a expressão carregada de preconceito
mas talvez este rapaz não compreenda
o que julga e o que defende.

Porque esse homem aí é macho
o negócio é falar de política
e não dar o nó
e fazer laço.