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17 dezembro, 2014

Sobre o Natal

As luzes da cidade brilham em meio a atrocidades
olhe para o chão
e quantos homens vivem em casas caixas de papelão?
olhe para cima
e árvores vestem enfeites natalinos.


15 dezembro, 2014

Dialética

Emburrado,
parecia tão bravo,
ninguém ousava discutir,
nunca vi alguém rebater.

Política vinte e quatro horas
era o que eu pensava:
- que cara estranho
não fala mais sobre
nada?

Porém eu que pouco sei
ainda assim contestei
porque não concordei
ou porque quis ser do contra
foi de propósito mesmo
se ele quer saber.

Na dialética eu percebi:

Como pode ser uma fera
em uma flor?

Como pode falar de guerra
com tanto amor?

E como pode ser tão sério
e ao mesmo tempo
de tão bom humor?


Um olhar além do olhar
acima da cor do céu.

Um coração que cabe
a humanidade,
que sem hipocrisias luta
pela igualdade,
e que se enfurece por
tanta sacanagem.

O que me encanta além
da cor dos olhos
é a cor da vida - "vermelha"
cor de sangue
dos que querem vida: os excluídos!

Desabrocha a fera em flor
se esconde a fera
numa flor,
sempre foi fera e flor.

Eu vejo os dois,
sinto e quero
os dois.


Página 63

Houve um tempo de tempestade
crueldade é se agarrar 
em cacos, restos de um vaso.

Na loucura de botar uma flor
sem ter vaso, sem ter água, 
sem ter nada. 

Na ternura dos meus olhos cegos
retina enterrada, 
fingindo cores pela madrugada 
sentindo amores que nunca 
dão risada. 

Uma súplica às vezes parece tão miserável 
hoje sei que miséria não é só barriga vazia 
é a insistência de um coração oco que bate
mas bate por nada.

A saudade uma ferida
não era saudável 
eram só partidas. 

Lamentável é a defesa
lamentável é a tentativa
sensações boas ou ruins
qualquer coisa virá poesia.

Fiquei no soro, no choro
vendo pingo por pingo
remédio lento como relógio
era uma dança da lentidão
entre pingos e ponteiros
eram tão exatos o pingo
e o compasso.

Deixei costurar, rasgar e remendar,
e abriu,
algo necrosava em mim.

Um bisturi....

Nem doía mais
parecia que nem era eu ali
contava apenas as lembranças de outra
puxei a gaveta dela e olhei tudo o que podia
não me reconhecia em tantas coisas
involuntário ou não
eu já nem sabia mais o que acontecia.

Foi assim em cada pingo de soro
misturado com alguma coisa que chamam
de medicamento
mas eficaz mesmo é o tempo,
esse ponteiro quase quebrado
e quando se vê....já passou o dia.


29 novembro, 2014

Pouse, repouse na poça
pose sem nenhuma posse
que a água é limpa
e o dia é claro
se olhe na poça
que possa o rosto nu
se ver no espelho d'água.

02 novembro, 2014

Mi, minha estrofe...menor


Eu lhe peço uma música 
e ele de mim aguarda estrofes
fazemos permutas
sem pensar em disputas.

"Alimentamos a alma em passos curtos 

somos pássaros de abraços profundos". 

Numa dança lenta nos experimentamos 

somos feras, flores, feridas e amores.

Conversamos em olhares

esperamos por certos lugares
em que a arte nos fará 
querer viver ainda mais. 

06 outubro, 2014

Eleições 2014

Votar no PSDB
na Marina ou no PT
não revoluciona
e nem é a Genro que vai trazer
o que soluciona.

A panela pega pressão
já escuto o barulho
chegará um tempo
que nem o humor conquistará
e nem demagogos
e nem debates na rede globo.

A panela explodirá!

04 outubro, 2014

Céu de pássaros

Felicidade é um banho de chuveiro
é o cheiro da comida da vizinha
é o abraço da vó já tão distante.

Felicidade é uma conversa descontraída
um riso inocente
e às vezes um olhar malicioso.

É bom descansar o corpo
trocar de roupa
deixar o suor partir.

Olho para o meu teto e nada importa
o que importa é ter um teto.

Olho para o prato que não é porcelana
vejo o bolo de minha mãe
que alegria!

São tantas as coisas simples para quem é "cego" na vida
São tantas as coisas grandes para quem se permite
sentir e enxergar a vida!

19 setembro, 2014

W.M

A voz marcava
A interpretação martelava. 

A voz dele no verso de outro
A interpretação tomando forma
formando a cor do poema, 
o contorno de cada sentido, 
o caminhar de cada palavra. 

Via a expressão do ator
diferente da face do autor. 

Vida, amor
ódio, terror...

Todas as sensações nas sobrancelhas 
e palmas das mãos.

Todas as sensações na mudança do olhar
e no jeito de falar. 

Interpretar a poesia no ato, 
fazê-la no tato 
mexer com o olfato, 
e talvez aguçar o paladar de palavrar. 

Isto só pode ser coisa de
Mestre, Doutor
Poeta e Professor...

14 setembro, 2014

"A hora da estrela dele"

Encantou-se pelas palavras de uma moça, 
enxergava elas feito louça, 
enxugava com cuidado. 

Ser delicado com os gestos, com os gostos
não faz de um homem menos homem
nem menos macho, 
nem menos alfa. 

Infeliz é aquele que não sente a qualidade
que só vive a quantidade
de falas repetidas pela sociedade. 

O homem caçador de misérias
este não é livre, 
é escravo.

E muitas vezes somos escravos,
custa caro ser você para não ser outro, 
mas fugimos feito loucos
e nos descobrimos em pessoas que são tão elas, 
nos fascinamos por tal encanto
porque o encanto delas
é o encanto que está presente na gente. 

É a Lourdes

Cantava daqui 
de lá, 
qualquer tempo indefinido, 
cantando para os males espantar. 

Saudades da mãe, 
saudades da terra
de seu povo do Maranhão, 
música brega, ela dizia:

- A música brega vive em meu coração!

A vida maltratava na mão
e nos vários dentes que lhe faltavam por falta de tostão, 
mas mesmo assim o sorriso dela por ser puro
invejaria aquele que só sabe esticar a boca no horizonte para  mostrar os dentes
brancos e sempre insatisfeitos. 

Não era só canção, 
era poesia, 
seus poemas em um caderno perdido
no entanto todos guardados na memória, 
e eu que mal guardo um verso meu, 
fui pequena perto da semianalfabeta e faxineira que ela diz ser. 


Essa mulher me coça o peito,
inevitável não escrever, 
são as histórias de outros que completam a minha história,
isso me faz crescer. 

03 setembro, 2014

SOMOS TODOS PALESTINOS

Meu peito arrebenta na faixa de gaza
enquanto outros celebram brindando com taça 
parece que a vida virou uma desgraça 
porque na Palestina é só bomba e mordaça. 

Nesta poesia não se percebe a harmonia 
pois o genocídio roubou  toda a minha alegria 
vejo o noticiário de crianças mortas do dia
e rapidamente a tristeza me contagia
fico a imaginar o sofrimento da família
que sem ter culpa perdeu sua melhor companhia.

Hipocrisia é Israel afirmar que o território é terra Santa
quando fazem dela palco de guerra e sangue
que não cede terra.

A vida deste povo vale bem mais 

do que investimentos norte americanos.

O empreendedorismo dos "Estados Desunidos"
fornece armamento para estilhaçar os palestinos
jogam mísseis para destroçar escolas e destinos
desumanamente criam negócios sem serem punidos.

Será este o fim desta pobre gente

ser "pregada na cruz" inocentemente
por conta do capitalismo que só quer cliente?

Porque a vida está além de terra e dinheiro.


Morto já está 

quem desabrigou e atirou primeiro. 






17 agosto, 2014

PULSA

Mundo vasto 
este mundo não é sertão
quero quem comigo queira
conhecer a imensidão. 

Das pessoas que lutam bravamente 
estas me fazem ver que nem tudo é em vão
me constroem, as construo 
e nos formamos sem tanto sermão, 
somente lutamos pelo que vive
no coração, 
somos garra e tudo isso virá uma canção. 

Interessante é o interesse de querer um pouco mais, 
de ouvir outras coisas,
de presenciar outros fatos, 
a beleza do que é novo numa mente jovem e velha,
a beleza de olhar outro canto que grita vida,
e me fascina a querer conhecer todos que gritam.

Eu sou cores, e o cinza deste céu já desabou rancores
hoje não vive o fel, mas outros sabores, 
que tocam o céu da minha boca, 
e arde a vida que me é tão louca.

Jogo a toalha para o morto
porque estou viva 
e por isso fico rouca.

Canto e falo com quem sabe que a vida
não é somente uma grande ferida, 
é ela nossa linda, nossa querida
amada vida 
e grande poetiza. 


28 julho, 2014

Eu sei... Manuel Bandeira : " O Bicho"

Fiquei esquecido (ficamos).

Pior que rato, pomba e barata,
eu sou o bicho do pátio,
pois que o rato e a barata assustam,
contudo eu, nem me notam
como o lixo- mastigo o resto,
fico aqui na calçada deserta.

A minha carne já não tem carne
para me aquecer o corpo,
o meu pelo eriçado pede socorro
na poça fica o meu rosto.
É fria a cidade da garoa
cidade que não me acolhe
eu somente ecoo e encolho.

Apanho porque tenho fome
todo dia o meu estômago leva um soco
a fome afunda, aperta e sangra.

Apanho porque tenho frio
a minha pele é suja e descoberta
o papelão inutilmente imita uma casa
me sinto um lixo jogado no nada.

Arranjo um canto perto da ponte
vejo uma fogueira
mas mesmo assim o meu corpo
fica congelado a noite inteira.

Abro a sacola e sobe o cheiro de comida podre
enfio goela abaixo pra segurar o meu estômago pobre.

- Será que sou um ser humano?
Eu falo, eu grito, eu chamo
eu tenho pernas e braços,
eu ando,
no entanto ninguém me enxerga
ninguém me toca
ninguém me ouve.

- O que eu fiz pra ser desprezado assim?
- Já estou morto?
- Eu sou um homem?

Não bastasse todo o descaso
ainda preciso lembrar de que não sou nada,
talvez nem bicho que tenha o coração batendo,
me fazem invisível e me deixam sentindo tudo,
neste frio a dor está ardendo.




27 julho, 2014

"CONSUMISTA SIM"

Às vezes acordo querendo vestir alguma coisa da Clarice, não!!...não é uma camiseta estampada com o rosto dela, é algum texto que me vista bem, algo que eu experimente de novo ou de repetido e perceba que me caiu muito bem. Perfeito mesmo é vestir Fernando, nossa...ele contorna muito bem o meu corpo, é um vestido impecável, me olho no espelho e me sinto ma-ra-vi-lho-sa!!!

Mas têm umas peças de roupa que eu experimento e tenho vontade de dar logo de cara, umas de processo civil em que você precisa ficar decorando - vou te falar: "fica tão mal vestido em mim", me olho e me sinto um ser alienado, essa coisa de decorar não é comigo, não vai, fica feio em mim, tenho vários amigos que acham uma vestimenta fantástica, no entanto, eu de-tes-to. Eu gosto mesmo dos trajes que questionam. Os sapatos são os melhores, eu adoro aqueles de filosofia jurídica, se bem que, o estilista deste ano é uma merda, só fala de salto fino 15 da teoria do utilitarismo, porém, sobre sapatilhas do Direito na Idade Antiga e Média, ele não quer costurar, acha muito chato, desimportante, "fora de moda", o negócio dele é o Sandel, o problema é que eu não gosto de salto alto, na verdade nem é bem isso, a questão é que para saber andar de salto, tem que saber andar primeiro. Entende?! 

Eu abro o meu guarda-roupa e não consigo doar quase nada, eu empresto com muito ciúmes - é claro, até pode rabiscar nas minhas vestes, eu não ligo, só não pode perdê-las, e nem emprestá-las sem minha autorização, sim, para algumas coisas eu sou rigorosa, fazer o quê?! preciso saber se o que é meu será bem cuidado, se está em boas mãos, pois já teve quem emprestei e me devolveu todo sujo de café, não adiantou botar na máquina, e não tinha produto ou alvejante que tirasse a mancha, e eu também não queria outra peça, eu queria sim a minha, a que eu comprei ou a que ganhei. Tem todo um ritual, um momento especial, não é assim: ver no mannequin e comprar porque estragou. 

Ainda ontem estava arrumando minha gaveta de pijama e me dei falta do Drummond, não sei para quem emprestei o Claro Enigma, e a Rosa do Povo e O Corpo eu não queria colocar, estava muito frio - está. Acabei pondo uma blusa velha que tenho e adoro: O avesso das coisas, mas como ela é curta demais tive que jogar outra por cima, peguei O Magma de Guimarães, meus braços ficaram quentinhos, braços aquecidos por poesias. 

- E a calça? coloquei duas!! uma do Quintana, porque aquece até a alma, contudo como sou friorenta e jogo todo o cobertor no chão, resolvi colocar mais uma, então, peguei o Fernando Sabino, que por pura ironia era o "Aqui estamos todos nus". Cai na gargalhada, mas o que importa é não passar frio ainda que desta forma, mesmo porque a reflexão me aquecia, aquece.

Bem...como os meus pés, mãos e nariz estão sempre congelando, pensei em colocar meias e luvas importadas, não que elas sejam as melhoras, se bem que algumas são, no entanto, porque são quentes, me emocionam até o último fio do cabelo, mas o coração é só do Fernando Pessoa, enfim, voltando aos outros importados e ao último fio de cabelo, o Maiakovski é extraordinário, uma meia grossa que só, lã boa, super recomendo, se estiver com ela você pode até colocar o pé no gelo que mesmo assim não sente nada, não sei o que acontece, e quanto às luvas: na mão direita coloquei o Kafka e na esquerda o intenso Dostoiévski!!

Por fim, precisava também de um cachecol, como disse, ontem à noite estava extremamente frio, foi necessário me agasalhar bem, assim, passei o Rubem Alves no pescoço, tenho 19 cachecóis dele, e o que mais gosto é o primeiro, o mais antigo, coitado já está velhinho e todo amarelado, é o "Ostra feliz não faz pérola", esquenta pra caramba, e foi um cachecol barato, porém, o melhor que tenho, o melhor de todos. A touca, coloquei Adélia Prado, só para combinar com o Rubem, não é a melhor touca que tenho, entretanto, gosto dela. 

Hoje se der tempo vou ao shopping, melhor: ao brechó, pois no shopping é muito mais caro, e eu nunca consigo comprar uma peça só, e como tenho umas gavetas ainda sobrando espaço e umas roupas que sei que vão me cair bem, eu vou lá, e quem sabe eu não traga uns três pares de sapatos da Clarice?!! eles ficam divinos no meu pé, diferentemente da Melissa, não gosto de coisas de plástico, gosto de conteúdo. Ahh...e como eu não me aguento, vou comprar mais um batom do Fernando Pessoa, desta vez não quero o discreto, quero o vermelho chamativo, e também um perfume do Machado, um de fragrância amadeirada que eu ainda não tenho, e o esmalte?? - Saramago ou Brecht? ...



26 julho, 2014

EDUARDO

- Mestiço?
- Japonês? 

Eduardo, aproximadamente 1,83m, um pouco meio sério, ficava mais na dele, mas tinha um jeito engraçado de ser, não sei se era o sorriso de lado ou se as piadas, enfim, isto já têm alguns anos, muitas coisas me chamavam a atenção nele, coisas as quais nunca disse, também não me arrependo, só me arrependo de não ter o conhecido melhor, era uma grande pessoa, é.

Tempo frio assim, como está hoje, e aquele rapaz sempre de bermuda, eu não sei o que acontecia, mas aquilo me dava mais frio ainda. Eduardo estudava pela manhã, e eu era do período noturno, no entanto, passávamos a tarde a estudar no cursinho. Logo que começamos a conversar ele me confessará que havia largado o curso de direito, estava no terceiro ano, mas se deu conta de que queria fazer educação física, contava com tanta empolgação, que eu percebia que realmente era o que ele queria, pelo menos parecia, e um ano foi suficiente para entrar na USP. 

Gostava de conversar com Edu, ele me ajudava em muitas coisas de exatas, sempre fui péssima com cálculos, enquanto que eu o ajudava com algo de literatura, geografia e história, bem...era uma dupla perfeita, ou quase, acho que quase! 

Às vezes o percebia olhando de lado, por baixo, porém, não dava para deduzir muita coisa somente com isto, eu sei lá, eu nunca fui apaixonada por ele, e penso que nem ele por mim, entretanto, alguma química acontecia, química esta que nunca soube explicar. Meus amigos sempre comentavam algo sobre a gente, e sempre tinha aquele que fazia comentários diretos bem na frente dele - eu ficava puta e ao mesmo tempo sem graça. 

Quando o percebia olhando, eu olhava também, depois desviava o olhar e ficava na minha, era engraçado, parecia um pega-pega de olhares dissimulados, Eduardo um tanto tímido, e eu, mais ainda. Ao me deparar com alguma indireta dele ou um jeito diferente, eu caia na gargalhada ou então era um pouco grossa ou estúpida, meio 8 ou 80, queria o 44, contudo...não conseguia. 

Mas...teve um dia que me marcou profundamente,não irei esquecer, Eduardo até agora em toda minha vida foi a única pessoa que sendo tão gentil em uma única frase conseguiu me quebrar as pernas, frase esta que eu tento aplicar em todos os meus relacionamentos, ou seja: com familiares, amigos e desconhecidos, embora não seja fácil, acho que é a essência.

A mesa estava lotada de material, várias apostilas, cadernos, enfim... ele havia acabado de me ajudar com alguns exercícios de matemática, sim, tinha muita sobra de borracha pela mesa, muita mesmo (risos). Pela tarde sempre comíamos alguma coisa, naquele dia eu comprei um pacote de bolacha, enquanto estava a abrir ele ficava olhando, mas era de um jeito diferente, de uma forma bem mais direta, retirei uma, ofereci, contudo, Eduardo não aceitou e continuou olhando, então eu disse:

- Que foi? ( ele baixou a cabeça e fez que nada havia acontecido).

- Você não quer mesmo nenhum biscoito? 

- Não!

- Hei...que foi? Tô falando com você!!

- Eu sei Fernanda, muito obrigado, mas eu não quero, hoje não.

- Hoje não?! mas quando é que você pega alguma coisa que eu te ofereço?

- Fernanda, obrigado, mas eu não quero, não estou com fome!

Grosseiramente respondi:

- Você nunca quer nada, não gosta de nada que eu te ofereço, não é possível!!!

- Do que é que você gosta? ou não gosta de nada???

Talvez eu quisesse saber de algo que ele gostasse para agradar ou conversar sobre, enfim, só percebi essa minha intenção muito tempo depois, porque eu não me dava conta, e o que era para ser carinhoso às vezes se tornava estúpido. E foi então que ele respondeu:

- Do que eu gosto Fernanda? ( indagou para responder, falando num tom baixo)

- "Eu gosto de educação"!!

Engoli aquilo, não tinha nem cara para olhar para ele, se pudesse eu afundava minha cabeça na mesa. Fiquei por um bom tempo pensando na tal da educação, o que era educação, o que é. Depois do ocorrido continuamos conversando nos dias e meses seguintes, no entanto, já não era a mesma coisa, me sentia um pouco mal perto dele, não por ele, mas por mim. Talvez eu estivesse contaminada ou podre por dentro, ainda que fosse o meu jeito de ser, de ter crescido em um ambiente assim, isto não me dava o direito de tacar pedras em quem nunca me ofendeu, demorei para compreender que certos comportamentos afastam as pessoas das quais gostamos, ainda que não seja intencionado.

Três anos mais tarde, perto do fim de um namoro mais do que desgastado de dois anos com um rapaz que com certeza não era o Eduardo, eu dei a mesma resposta que um dia me fez querer afundar a cabeça na mesa. No fundo a gente falta com educação com a gente mesmo quando deixa o outro sem limites nos tratar da maneira como ele acha que deve nos tratar.

As cartas de Daniel - Parte I

Feliz!! ... nunca virá Francisca tão sorridente como estava, perambulava atônita, dava pulinhos, ria à toa, pelo menos era o que parecia, mas toda aquela felicidade deveria ter uma causa, e tinha.

- Fran, o que aconteceu? vamos me conte?!!!

Sua felicidade me deixava alegre, vida sofrida não é fácil, algo de muito bom com certeza havia acontecido.

- Vamos, me diga mulher!!!

- Sabe o que é Fê, eu vi meu menino depois de muito tempo, estava com tanta saudade do meu filhote, aí... como estou contente, meu coração vai explodir de imensa alegria.

- Nossaaa, Fran...que maravilhaaaa, mas ele estava viajando?? mora em outro lugar??

Neste momento o sorriso de Francisca ficou pequeno, os seus olhos perderam certo brilho, a euforia diminui drasticamente. Abaixou a cabeça, ficou ali olhando os azulejos da parede, até que encostou na própria parede e seus olhos ficaram vermelhos e  se encheram de lágrimas:

- Fê, meu filho está preso!!!

Eu não soube como interagir com aquela afirmação, fiquei sem reação, pensei que o rapaz estivesse em algum outro lugar, qualquer outro motivo, menos esse, porque jamais se passou pela minha cabeça que ela fosse me falar isto. Fácil é ver os noticiários da tv e mães emocionadas por reencontrarem os seus filhos mesmo que atrás das grades - não sei - não que seja fácil, porém a sensação é outra, mas ali, aquela mulher na minha frente me fez ver uma realidade diferente, ter uma espécie de um contato mais próximo, entrar num outro cenário. Fiquei uns 30 segundos absorvendo a fala, segundos que se tornaram eternos pelo silêncio, ela com a cabeça meio envergada, e eu sem saber como lhe dar com a situação perguntei:

- Há quanto tempo ele está preso? o que aconteceu?

- Ah...menina, tem pouco mais de um ano, de lá pra cá as coisas mudaram bruscamente, mas o meu menino é inocente, ele é bom, tão bom que é bobo, andava em má companhia e acabou sendo pego, indiciado por tráfico de drogas e porte de arma, mas é mentira, ele saiu de casa com um pote de pipocas, tava festejando o nascimento da sobrinha, porém (numa voz desanimada contínuo a narrar), foi lá pra rodinha dos amigos nóias dele, os caras já estavam tudo cheirado, daí a polícia baixou lá e o resto você já sabe né?!!

- Ah...é Francisca? mas essa história é meio esquisita, não acha? Eu imagino que seja muito complicado lhe dar com tudo isso, mas, se ele foi indiciado por tráfico de drogas e porte de arma, alguma coisa deve ter...

- Ele é besta Fernanda, os caras da quebrada fizeram ele de idiota, se aproveitaram da situação, deram uma mochila pro Daniel segurar bem no momento que a polícia chegou.

- Sei lá Francisca, são tantas coisas, tem gente que entra mesmo de laranja na história!

- Fê, e esse negócio de arma?(questionou com os olhos arregalados e inconformados) o Daniel nem sabe atirar, nunca pegou numa arma sequer, e outra não tinha arma nenhuma, inventaram essa história pra ferrar com o meu filho. 

- Será que ele nunca pegou numa arma Francisca? Por que você acha que quiseram ferrar com o seu filho?

- Claro que nãoo!!! Ele é muito bobo, inocente demais, fuma umas às vezes e só, no entanto, acabou se ferrando dessa vez, os amigos usaram ele. 

- Bem... essa historia você pode me contar melhor depois, mas agora, quero que me conte como foi a visita, como foi vê-lo depois de tanto tempo (era preciso sair daquela cena ruim para entrar em outra talvez menos pior, ou não:"o presídio"). 

Percebi o semblante de Francisca mudar completamente, as cenas do último final de semana se traduziam em seu olhar, um sorriso esticava de mansinhos, e as mãos se juntavam, da mesma forma que se veem em esculturas de anjos, ela as aproximou perto do peito e como uma menina apaixonada de 15 anos, disse:

- Foi maravilhoso, já tinham uns meses que não o via, o dinheiro tá curto, é caro ir pra lá, é longe daqui, 12 horas de viagem, acredita?! estava com saudades do meu bebê, ele não está muito bem sabe?! Ele tem convulsões, vive tendo ataque epilético, eu ficou super preocupada, morro de medo que algo pior aconteça ao meu filho. Na última carta que me mandou, Daniel escreveu que tem dormido muito, e que escuta umas vozes ruins falando com ele, que ele deve se matar, que ele vai morrer ali. Com certeza tudo isso é consequência do péssimo ambiente junto aquela energia horrível e também tem a questão dos remédios, ele tomava apenas um gardenal por dia, contudo, o médico mudou a dosagem e agora ele toma três comprimidos diários. É muita coisa, tentei conversar com o doutor, mas não consegui. 

- Nossa Fran, é muita coisa mesmo, alterou radicalmente!

- Tome, olhe a carta que ele me escreveu... 



16 julho, 2014

O roseado do asfalto

Queria a beleza da cerejeira 
se o meu corpo fosse um tronco
e os meus braços cheios galhos
eu espalharia flores cor de rosa
pela calçada.

Seria charmosa
ousaria me abrir no inverno
não usaria botas, casacos e meias. 

Rasgaria o cinza e floresceria no frio 
seria a cor viva que brilharia nos olhos de quem me viu.

12 julho, 2014

Palestina

Na faixa de gaza tem genocídio
famílias são mortas pelo vizinho
trucidam crianças
matam o povo
para que a terra
seja dele de novo.

O terror se revela como destino
e sangue é espalhado por todo caminho.

Essa coisa de posse
é uma coisa horrível
propriedade não é para todos
território não é para o povo.

Não venha com a luta de Terra Sagrada
sob pretexto de religião
são tantos argumentos para concluir
que no final o indivíduo não é irmão.

Por isso destruímos a nós e a Nação
e a intervenção dos Estados Desunidos
sempre se dá
fornecendo armamento nuclear.

É desnecessário precaver inocentes do perigo
não importa se crianças tinham mais tardes para brincar
e nem se pais não retornam mais ao lar
porque o lar é outro cenário
hoje é terra que soterra o corpo mutilado.


POSSO ENTRAR?

As ruas ficam mais bonitas quando quero conhecê-las
e as pessoas ficam mais coloridas se  resolvo percebê-las. 

O mundo que dança lá
dança aqui
pra ver a poesia acontecer 
e anoitecer com você.
(comigo)

Os passos não precisam ser rápidos 
por mim eu pararia naquele instante sagrado de vida 
que alimenta a minha alma 
que às vezes se encontra vazia. 

Mas o estranho disse prosa 
o outro promessa 
e eu confesso que adorei 
o compromisso sem pressa.

É preciso sair para chorar
mas também é preciso sair 
para ver a graça
singela graça que toca 
e bate à porta. 

Na calçada a avenida não me desperta 
vejo sim  alegria nos bares
nos pedestres 
e nas esculturas de outras épocas
em gente que canta na esquina e comove o peito
na simpatia do desabrigado que vive sem rumo.

Eu quero é mais sentir o vento contra mim
e as folhas que caem nos acostamentos 
e gente que chega com um sorriso aberto
pois assim terno fica o meu pensamento 
que não cede espaço para o sofrimento.

Cura não é a rua 
mas os olhos que a olham quando não está nua. 

09 julho, 2014

Condição pós moderna

Rabiscos na tela sem ligação
remontam a nossa situação
arte como abstração
colagem de outra colagem
roupagem de uma ultra modernização.

Conhecimento corre
tudo escapada
tudo se cria e morre
na nossa expectativa
de projetar um futuro perto
que sempre se consome
na nossa destruição.

Perdemos a noção
se estamos aqui ou no Japão
esse universalismo fragmentado
que nos une separado
é contradição
para que tenhamos tudo
sem ter nada
um vazio que preenchemos
com nada
parcelado em 24 vezes no cartão.

Em um clique estou no Afeganistão
noutro eu viajo para as ilhas Cayman.
Em um clique eu conecto
noutro eu desconecto.
Em um clique eu compro
noutro eu vendo.
Em um clique se tem um relacionamento
noutro o rompimento.

Somos multi
personalidades
necessidades
sem sabermos o por quê.
Ontem eramos alienados
hoje somos esquizofrênicos
desconhecemos a própria realidade.

Observem a arquitetura
e as relações sociais.
Vejam a pintura
e a aplicação  das texturas.
Ouçam a música
sua batida e ausência de conteúdo.

Percebam a superficialidade
do evento em que vivemos
estampamos risos angustiados
porque somos bombardeados
velozmente por tantas informações
que roubam a nossa identidade.

Não importa o conceito se constantemente muda
em busca da verdade foi que negamos a nós mesmos
a tese de hoje será derrubada amanhã
e a de amanhã será rebatida em outro dia.

E a colonização perdura
já não mais por terra
mas pelo espaço da globalização
que não nos faz livres
e nem mais felizes
pois a sensação não mente
sabemos perfeitamente
que é oco porque é ilógico
no entanto nos tatuamos com status
vivemos na morada do ego
que nos apodrece.

Já não temos ouro para emitir tanto papel
por isso tratemos rapidamente
de comprar e comprar
para abafar uma crise bem maior
e assim tudo vai para o mercado
até o sentimento é mercantilizado
qualquer sonho é industrializado
e o sentido é não ter sentido
apenas sentir-se perdido.

"Não brilhou no céu da pátria nesse instante"

E o amor acabou
tão rápido assim
que por sete a um
eu já não sou mais do Brasil.

Lindos campos têm mais flores
boto fogo na bandeira
e quem se disse patriota
não passa de um hipócrita.

Eu sou brasileiro com muito orgulho
- será?
Já sei que culpam a educação
e com razão
mas olha só o que o comércio faz
o que ele traz
pelo lucro nos faz e desfaz
facilmente
em camisetas verde e amarelo
em frases que o povo não sente
que a história não construiu.

Amor ao Brasil pelo consumo
o Brasil é uma merda - é o que sempre escutei
mas também
o que sempre descordei.

Tá no pé
tá no gingue
tá na cor
e no esquecimento.

Ah...meu Brasil
que precisa ser descoberto
por fora de tanto imperialismo
pois que
ainda se fossemos vencedores da Copa
nos veriam derrotados
porque estamos derrotados
nas escolas e nos hospitais
nos barracos com casas que desabam
que são inundadas
na criança que sonha em ser
jogador de futebol, engenheiro, bombeiro
mas que depois quando cresce
se torna como referência
informante do traficante
o tal do aviãozinho
ou então
dono da boca, da biqueira
que com certeza vai matar ou vai morrer
com um tiro na cabeça.

E doutro lado
tem o bancário pobre
e o burguesinho.
Tem o Bradesco
e o Banco Safra
tem tanto banco
e multinacional
que só agridem
o que é nacional.

E tem gente que virá idiota
numa classe média
porque o seu poder de compra
de forma equivocada
aumenta consideravelmente
comprando a prazo.

E se tenho o meu carro
e um curso universitário
foda-se o resto
porque eu não protesto!

Eu grito: Vai ter copa sim
eu visto a camiseta do Brasil
eu vou ao estádio
e depois da goleada
me junto com os gringos da vila Madalena
pra tomar uma caipirinha
e botar fogo na bandeira.

Ah...Brasil
pra mim
pra mim...

07 julho, 2014

Cirrose

Saudades de Manoel
que adoeceu no quintal do bordel
tomando uísque e escrevendo um cordel.

Para não ficar sóbrio e não ver o próprio sombrio
Manoel engolia seco o gosto do fel
mas disfarçava como se fosse mel.

E naqueles olhos amargos
amou a tal da prostituta - Dona Céu!

Mulher dos seios fartos
cabelos coloridos - avermelhados.
Atendia o deputado
o padre e o pastor
mais o primo do coronel Nestor.

E seu Manu morria
a cada gemido que ouvia uma lágrima escorria
então outro gole ele dava pra ver se o tímpano estourava
e aquele som de repente feito caco o cegasse.

E  Dona Céu às vezes apanhava
de clientes que porque pagavam,
abusavam.

E nesta loucura um dia o álcool não segurou o Manoel
ele meteu foi o pé na porta pra matar o primo do coronel
mas o moço tava armado
e Dona Céu entrou na frente do escritor bebum
quando o gatilho foi disparado.

Direto na cabeça - o sangue escorria!

Manoel com os escritos dele numa folha de papel
agachou-se para abraçar sua amada falecida
e sabia que aquela cena se repetiria por muitas vezes nas horas do dia
pela lembrança do último respiro
da moça que ele contemplava
em todas as poesias que escrevia.

06 julho, 2014

Desfi "brilhar" dor

Ela fala do palhaço                                            
do fracasso
olhe o erro e dê um abraço.

Pois que a vida
vida passa
morre tudo
perde tudo
não acerte tanto
crie asas.

No tropeço
dê um riso
se escorrega
improvise.

Faça uma graça
para tristeza
dê uma cambalhota
que tudo passa.

Lá no hospital
a vida morre
mas o palhaço
é quem socorre.

Uma careta contagia
toma o espaço da doença
e oxigena a alegria
do paciente que talvez
só viva mais um dia.

Estação São Bento

Vi os olhos de Jesus neste sábado
aquela cruz era um carrinho cheio de sucata
sendo carregada pelas costas de um senhor
mais do que exausto.

Ali mesmo acho que ele cairia.
Ali mesmo mesmo ele seria pregado
como é todos os dias.
Condenado por um sistema
julgado por uma sociedade.

Ele apodrece
parece que ninguém vê
ou percebe.
São olhos de quem já sabe
que a morte será sofrida
porque já sofre em vida.

Suor com cheiro de sangue
fome
sede
trapo no corpo
e coração grande.

29 junho, 2014

O Amante do Bukowski - Parte IV - Uma fala da infância

- O que tem do passado no presente?
- O que viverá do passado no futuro?
- Por quê?

- Por que a gente traz toda essa bagagem com a gente, até a mais pequena fala, que por sinal parece ser a que mais ecoa em nossa mente?

 Ele era pequeno demais, uma criança, e como praxe, como amor ou como sei lá o que, é coisa de mãe dizer ao filho que caso venha a se perder, que fique parado no mesmo lugar até alguém encontrá-lo, até ela o encontrar. 

Parece que isto cresceu junto, a fala uma semente, enraizou-se profundamente, ao ponto de confundir o tempo, a idade, as escolhas. Forma de estagnar, estagnar, estagnar, muito mais do que isto: medo!

- E se ela não me achar?
- E se eu for? E se eu for? se eu for?
- Ela vai me achar?
- Vou me perder ainda mais?
- Estou perdido... cadê minha mãe?
- Ela disse para eu parar, vou parar e ficar aqui porque me perdi. 


O conselho da mãe ecoa há mais de 14 anos. A fala é uma marca, um conflito, um impasse, o medo de se perder porque já se perdeu uma vez, e hoje é metáfora, é pausa de dor. 

Não vingar os passos.
Ele para e fica esperando, sabe-se lá o quê ou quem.


" Desejo"

A vida é tão breve, 
que não quero me prender a tantas mazelas 
que me maltratam a alma. 

Quero dela levar e deixar o melhor 
dentro da condição imperfeita que sou, que somos. 
Que não cresça nenhum tumor em nenhuma parte do corpo,
do peito, mas sim uma flor. 
Que se faça de todos os gestos um belo pássaro
que sejam nobres num coração simples
e nunca pobres.

Que a maldade do outro não me tome os olhos 
por quem a fez, a faz e o cegou.
Amadureça a compreensão para que eu possa entender
que é um ser em evolução, assim como eu, como nós. 

Nas paredes de todas as casas 
misturam-se tristezas em alegrias, 
de moradas com janelas trancadas e outras escancaradas
algumas preenchidas e várias desfalecidas.

Pois que o sol entre 
pela fresta ou pelo teto
e não morra a luz no cimento da calçada 
dance o clarão levando toda a escuridão.

E dos amores, que sejam lembrados com profundo carinho.
E dos inimigos, talvez eles me tenham como, 
e embora eu me afaste por não me quererem perto,
não os tenho assim.

Que a semente plantada seja vingada e não corrompida, 
e o fruto colhido oferecido na mesa farta, 
mas principalmente na mesa vazia.

22 junho, 2014

O Credo

A natureza é uma arte 
que está em cada parte
que você imaginar.

Tem pra todo gosto 
pra toda cor
em todo formato 
e cheia de sabor.

Vejo arte na mariposa 
e nos cachos daquela moça. 
Olha as asas deste pássaro 
e a beleza que é a vida quer ensinar.

O mar é de grandeza 
e a Terra por si só es mãe natureza. 

Somos filhos feitos de contorno com o pincel 
pintados por uma pele escura como o barro 
e clara como areia e como nata.
Nossos olhos bem abertos e outros 
bem puxados,
são tantos escuros e tantos outros esverdeados.

E olha só as folhas que caem em cada estação
e as flores que desabrocham os amores no 
inverno e no verão .

Uma riqueza natural sentida aqui 
nas nossas veias 
no sangue que corre
no cordão umbilical que se corta
no choro que é uma arte
arde a vida
vista numa imensa tarde colorida
em sol
em chuva
na lua que retorna
no céu.

21 junho, 2014

Somente política discursada!

Conheço dessas pessoas
que falam bem.
De ideias e discursos sociais comoventes,
de estudos minuciosamente engajados.

Mas quanta teoria para um pingo de prática.
Quanta palavra bonita para muito pouco sentimento pelo homem.

Vejo estética, poder e arrogância.
Precisão inútil de somente se aparecer
sendo apenas alguém com intelectualidade política.

Porém me pergunto do que adianta tudo isso,
se tudo isso não passa somente de um trabalho publicado?

Não falo dos conservadores, pois deles já espero!
Falo mesmo daqueles que dizem lutar pelo seu povo,
mas que no início do dia o que fazem
é vestir a lã por cima de um pelo sujo.


20 junho, 2014

VOE

Não vê que algo tão lindo assim
é lindo por viver em braços livres?!

Não é preciso se angustiar para chegar,
e nem é necessário se lamentar.
Não vive só na pele ou nesta roupa
que a gente veste e depois enterra.
Não é guerra e nunca foi.

O que pulsa não é vício
é virtude que todos têm
mas que nem todos
experimentam verdadeiramente
a liberdade de sentir.

Seria tão difícil permitir
que a felicidade do outro
seja a sua também?
Ah...a vaidade,
porque nós somos em certas vezes
vaidosos demais,
uns mais, outros menos.

Somos orgulhosos, mesquinhos
confundindo tudo e chamando de amor,
acredita?

Mas...
o amor é isto mesmo?

Me pergunto para aprender,
pois é tão simples e tão complicado
no mesmo batimento.

E confesso que de um tempo para cá
venho compreendendo
que amar além do que as novelas contam
do que os romances dizem
ou do que os filósofos questionam,
é apesar de tudo se desprender e continuar
mesmo assim, amando.



12 junho, 2014

Sobre passos de formiga

Curtos
quase que não sinto.

- Mas qual é o tamanho do peso
que carrega o corpo?

- Sinto.

Trabalho de formiga cansa
demora,
não cabe ansiedade
cabe tempo e esforço.

Trabalho de formiga
é plantar café para colher
depois de muitos anos,
é fazer massa de macarrão
tão diferente do que vende
na prateleira do mercado.

Como relações.
Como amizades.
Elos não se constroem
de um dia para o outro.
Belos quadros não se pintam
em dois minutos.

O que é preciso para que a vida
não seja pequena, embora curta?

Os passos curtos não evitam a vida curta
mas não fazem dela algo pequeno.

Passos de formiga não cabem superficialidade
cabem vontade e transformação.

Amanhe-cendo-sendo

Para ser feliz,
cedes
sedes tenha
ceda um pouco.

"Acorde cedo" depois das dez
num sábado de inverno
para depois cantar até ficar rouco
de rica que é a nossa natureza
quanta beleza no ser
do nosso céu.

Cedo a ele cedo o meu fel
para que longe de mim fique
este véu
não quero me cobrir
sede tenho de me descobrir.

Soa em mim a sede de viver
Sou em mim o que cede para
poder ver.




11 junho, 2014

89.7

Eu quero uma casa no campo
Vamos fazer um filme 
Você podia ao menos me contar uma história romântica
Levanta o sol do meu coração
Eu posso te fazer tão bem 
Eu quero ver o pôr do sol lindo como ele só
A casa fica bem melhor assim
Se eu te amo e tu me amas 
Meu coração canta feliz 
E ai então estamos bem 
Beijo tua boca, te falo bobagens
No chão, no mar, na lua, na melodia 
Sossega a minha boca, me enche de luz 
Vou pegar a sua mão e jogar no incêndio
É a dose mais forte e lenta
Eu não peço nada em troca 
Quando a gente ama não pensa em dinheiro
Sentimento fundo de água
Tudo em nome do amor!

07 junho, 2014

Made in me

O bom de não se ter tudo é que se aprende a criar o que não se tem. Sou grata por todos os brinquedos que os meus pais não me deram, não foi um problema grande para mim, os que tinha eu brincava, os que eu não tinha, eu simplesmente criava. Fazia minhas bonecas, os vestidos delas, mudava até as minhas roupas, e tudo mudava ao redor, não era como chegar em uma rodinha de crianças e perceber o que todos têm e você não, mas sim, o que eu tinha e o que o mercado não dava. 

Queria uma lousa maior, não tive, então eu rabiscava com giz nas cerâmicas de minha casa, depois eu apagava, confesso que a lousa laranja me ajudava a enxergar o mundo de uma outra forma, de maneira que nem sempre as ferramentas precisavam ser bem aquelas para se alcançar o que se pretendia, por isso, eu não me queixo de minha infância porque tive tudo o que quis de uma maneira muito diferente, forma esta que me fez usar a criatividade, exercitá-la, meus pais nem perceberam, no entanto acabaram me ajudando muito nisto e nem sabem o quanto.

O interessante é que a infância de algum jeito sempre nos acompanha, nos marca com certa característica ou com várias. Geralmente as nossas escolhas de vida iniciam-se nela, eu não falo da maioria das crianças que querem ser veterinárias ou jogadoras de futebol e depois tornam-se algo totalmente diferente, eu falo de nossas relações, do nosso modo de lhe dar com elas, de interagir com tudo que recebemos, para podermos optar em tê-las ou não, ou ter de um outro jeito.

À medida que envelhecemos outras necessidades e novos desejos aparecem, o que era velho vai embora ou então, amadurece, e por isso contínua conosco, pois certos aspectos da infância crescem dentro da gente, portanto, eu acredito que nunca vou parar de escrever, porque já gostava de outras épocas, e hoje eu já não faço as minhas bonecas, eu pinto os meus móveis ou qualquer outro objeto que eu queira mudar - eu simplesmente mudo! Isto não é uma apologia para que não se comprem coisas novas, porque é gostoso comprar coisas novas e não tem nada de errado, porém, melhor ainda é fazer do velho algo novo, uma pintura muitas  vezes muda tudo, mas, atenção: não é somente uma pintura ou a construção de alguma coisa, é a sua pintura, é a construção de sua ideia, de sua coisa, e me sinto assim, maravilhada, com coisas que são feitas dentro de mim, arquitetas por mim, coisas estas que o mercado não dá. Made in me!!


Um vitral em Diadema

Sentada na calçada
ainda me lembro 
do desânimo dela, 
do mesmo, 
do que não muda
parecia um destino 
totalmente imperfeito.

O choro
a vontade 
o não novamente.

A força se esgotava 
as pessoas não ajudavam muito
sempre palavras para nos derrotarem
ainda mais.
Não é fácil, não foi!

Mas derrotados são aqueles que nunca tentam,
que se acomodam - sabíamos disto perfeitamente.

Do amor pela química fez poesia, faz.
Em teus cálculos preenchidos de versos 
e metáforas
um universo de belezas e histórias 
que são escritas por desgastes e vitórias.

Complicada labuta 
depois de tanta disputa 
e depois de tanto tempo
é que se compreende 
que o nosso  adversário 
é a gente mesmo.

E da força quase falha 
riscando faíscas 
para ver ser reanimava o sonho
é que sentada na calçada cantamos.

E o teste não havia iniciado as treze horas daquele dia
4 de novembro
descobrimos que ele começou mesmo 
foi no nascimento,
desde o primeiro choro,
desde o primeiro respiro,
e o contado com o mundo externo
o contato com apatias e empatias 
o contato com nossas escolhas
com que atrai verdadeiramente
com o que repele bruscamente.

Disto às vezes fazemos guerra 
interna e por fora. 
Temos amor pelo que queremos.


...felicidade é só questão de ser!


03 junho, 2014

Para Carolina : "Sobre contos de fadas"


país em que não matam as borboletas
território em que não habitam inúmeras facetas
não é necessário se esconder
nem é preciso temer.

Vejo pétalas e gravetos
misturados em pedras, em folhas,
com cascas de maça
e cheiro de hortelã.

Lugar de primavera cantar a tarde inteira
o vento me abraça sem trazer poeira
e príncipes partem sem fazer alarde
porque não me  foi possível acreditar neles
nem
quando eu era criança
e nem nos sapos que se transformavam
e nem nos beijos que acordavam belas adormecidas,
gatas borralheiras e
brancas de neve.

A mim nunca foi dado
participar de um mundo de intensas
fantasias
pois da barriga já me diziam
que o amor não era alegoria.

Mas foi a Fera
a única exceção
dos contos que eu lia.
Fera que me coloria.
Fera em mim.
Fera no outro.
Bela em mim
pelo brilho do outro.

Eu nunca me assustei com ela,
comigo.
De certo que os meus pés não ficaram
bem no chão
e nem os quero tão presos assim,
mas minha cabeça não vive no mundo de algodão
e nem o meu coração,
o nosso.

Não tínhamos um castelo
então fizemos um abrigo.
Xícaras não dançavam
no entanto passarinhos cantavam.

A Fera não me dizia:
"era uma vez",
ela sorria com todas
as nossas vezes.

E eu...ria
por toda a nossa falta de fadas
e por toda a história que se construía.




31 maio, 2014

Sua Maldita!!!

Eu já falei pra'quela atrevida parar de me encher, toda hora fica no meu pé, que grude, não tem o que fazer?! Sabe, é complicado, ela poderia encher o saco de outra pessoa, de alguém com tempo ocioso, mas não, a tarada fica aqui me atormentando a paciência, já tô de saco cheio, vai chegar um dia que isto irá estourar, não tá dando mais pra aguentar, agora me vigia a todo instante, acredita?
Ah...não, vai se ferra, não tenho trégua mais, perdi minha paz. Aliás, ela tá com ciúmes até dos meus estudos, como é possível? - Que absurdo!!
Eu já falei que estou em época de prova, caramba, eu já ameacei terminar a relação, mas aquela cachorra não sai do meu pé, parece sarna. É no ônibus, na rua, em casa, na faculdade, tomando banho, se arrumando, estudando, e essa maluca quer a todo custo que eu faça sempre os caprichos dela, não dá, tô cansada disto, será que a carente  não compreende que o meu amor e os meus objetivos não se resumem somente nela?? Eu acho que não, ela deve ser uma doente mesmo e das piores, porque isto não é amor, é obsessão, eu não a escolhi, ela me escolheu, no começo era mil maravilhas, mas agora??? 

Tudo ela quer que eu registre, tudo ela quer que eu escreva, me liga umas cem vez por dia na mente, só pra dizer: escreva, veja, olhe isso daqui !!Pô escrita, dá um tempo, se toca, eu não sou sua marionete. 

29 maio, 2014

O Amante do Bukowski - Parte III


Ele coloca Cícero pra tocar,
tentando apaziguar o que se bate contra o concreto.

Às vezes quando menos triste, canta Smiths,
Hand in glove!

Ele não sabe dizer,
eu interpreto os textos que o amante escreve.

Quase sempre depressivos.
Quase sempre angustiantes.
Sempre tem uma mulher no meio com a palavra
foder - minto, quase sempre.

Procuro o amor e não vejo.
Encontro fuga,
encontro medo.

Não consigo como os outros
dizer: "- Poxa, que lindo!!"

O rapaz escreve bem, muito, mas
não é bonito.
Escancarado ele grita:
- Gente estou perdido.

Viaja para habitar paisagens nas quais
ele
não vive,
se fez sombra nas fotografias.

Não sou do contra, só não apoio o suicídio
como remédio.

No fundo o que ele quer é um laço seguro,
que não o aperte,
que apenas o segure,
e...é preciso entender que antes do laço está o nó,
e que nada disso é fácil,
e que a vida também se preenche de conflitos
e questões que nos fazem melhorar.

É preciso investigar,
assim como se investiga uma doença
para curá-la,
assim como insistir em limpar o machucado
para cicatrizá-lo.

28 maio, 2014

Constelação de Scorpius

No hemisfério sul celestial
os cúmulos estrelares ficam a encantar.

Nebulosas são poeiras cósmicas
com gazes que se fazem visíveis
em temperaturas de alto nível
que espalham a vibração
e desenham a borboleta para o escorpião.

E foram os gregos que vestiram este altar
Ptolomeu em sua obra soube bem o que citar.

Falo do animal que chamam de inimigo
e não percebem que suas cores vem nos contemplar.

São outras imagens que formam um grande corpo
são tantos astros que cedem luz pelo espaço
constroem jardins pelo caminho
cedem energia para o vizinho.

E no coração dele - uma gigante vermelha.

- Pulsa Antares!

Deixe Marte ver
que em teu peito
não vive a guerra
mas somente a beleza.