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28 julho, 2014

Eu sei... Manuel Bandeira : " O Bicho"

Fiquei esquecido (ficamos).

Pior que rato, pomba e barata,
eu sou o bicho do pátio,
pois que o rato e a barata assustam,
contudo eu, nem me notam
como o lixo- mastigo o resto,
fico aqui na calçada deserta.

A minha carne já não tem carne
para me aquecer o corpo,
o meu pelo eriçado pede socorro
na poça fica o meu rosto.
É fria a cidade da garoa
cidade que não me acolhe
eu somente ecoo e encolho.

Apanho porque tenho fome
todo dia o meu estômago leva um soco
a fome afunda, aperta e sangra.

Apanho porque tenho frio
a minha pele é suja e descoberta
o papelão inutilmente imita uma casa
me sinto um lixo jogado no nada.

Arranjo um canto perto da ponte
vejo uma fogueira
mas mesmo assim o meu corpo
fica congelado a noite inteira.

Abro a sacola e sobe o cheiro de comida podre
enfio goela abaixo pra segurar o meu estômago pobre.

- Será que sou um ser humano?
Eu falo, eu grito, eu chamo
eu tenho pernas e braços,
eu ando,
no entanto ninguém me enxerga
ninguém me toca
ninguém me ouve.

- O que eu fiz pra ser desprezado assim?
- Já estou morto?
- Eu sou um homem?

Não bastasse todo o descaso
ainda preciso lembrar de que não sou nada,
talvez nem bicho que tenha o coração batendo,
me fazem invisível e me deixam sentindo tudo,
neste frio a dor está ardendo.




27 julho, 2014

"CONSUMISTA SIM"

Às vezes acordo querendo vestir alguma coisa da Clarice, não!!...não é uma camiseta estampada com o rosto dela, é algum texto que me vista bem, algo que eu experimente de novo ou de repetido e perceba que me caiu muito bem. Perfeito mesmo é vestir Fernando, nossa...ele contorna muito bem o meu corpo, é um vestido impecável, me olho no espelho e me sinto ma-ra-vi-lho-sa!!!

Mas têm umas peças de roupa que eu experimento e tenho vontade de dar logo de cara, umas de processo civil em que você precisa ficar decorando - vou te falar: "fica tão mal vestido em mim", me olho e me sinto um ser alienado, essa coisa de decorar não é comigo, não vai, fica feio em mim, tenho vários amigos que acham uma vestimenta fantástica, no entanto, eu de-tes-to. Eu gosto mesmo dos trajes que questionam. Os sapatos são os melhores, eu adoro aqueles de filosofia jurídica, se bem que, o estilista deste ano é uma merda, só fala de salto fino 15 da teoria do utilitarismo, porém, sobre sapatilhas do Direito na Idade Antiga e Média, ele não quer costurar, acha muito chato, desimportante, "fora de moda", o negócio dele é o Sandel, o problema é que eu não gosto de salto alto, na verdade nem é bem isso, a questão é que para saber andar de salto, tem que saber andar primeiro. Entende?! 

Eu abro o meu guarda-roupa e não consigo doar quase nada, eu empresto com muito ciúmes - é claro, até pode rabiscar nas minhas vestes, eu não ligo, só não pode perdê-las, e nem emprestá-las sem minha autorização, sim, para algumas coisas eu sou rigorosa, fazer o quê?! preciso saber se o que é meu será bem cuidado, se está em boas mãos, pois já teve quem emprestei e me devolveu todo sujo de café, não adiantou botar na máquina, e não tinha produto ou alvejante que tirasse a mancha, e eu também não queria outra peça, eu queria sim a minha, a que eu comprei ou a que ganhei. Tem todo um ritual, um momento especial, não é assim: ver no mannequin e comprar porque estragou. 

Ainda ontem estava arrumando minha gaveta de pijama e me dei falta do Drummond, não sei para quem emprestei o Claro Enigma, e a Rosa do Povo e O Corpo eu não queria colocar, estava muito frio - está. Acabei pondo uma blusa velha que tenho e adoro: O avesso das coisas, mas como ela é curta demais tive que jogar outra por cima, peguei O Magma de Guimarães, meus braços ficaram quentinhos, braços aquecidos por poesias. 

- E a calça? coloquei duas!! uma do Quintana, porque aquece até a alma, contudo como sou friorenta e jogo todo o cobertor no chão, resolvi colocar mais uma, então, peguei o Fernando Sabino, que por pura ironia era o "Aqui estamos todos nus". Cai na gargalhada, mas o que importa é não passar frio ainda que desta forma, mesmo porque a reflexão me aquecia, aquece.

Bem...como os meus pés, mãos e nariz estão sempre congelando, pensei em colocar meias e luvas importadas, não que elas sejam as melhoras, se bem que algumas são, no entanto, porque são quentes, me emocionam até o último fio do cabelo, mas o coração é só do Fernando Pessoa, enfim, voltando aos outros importados e ao último fio de cabelo, o Maiakovski é extraordinário, uma meia grossa que só, lã boa, super recomendo, se estiver com ela você pode até colocar o pé no gelo que mesmo assim não sente nada, não sei o que acontece, e quanto às luvas: na mão direita coloquei o Kafka e na esquerda o intenso Dostoiévski!!

Por fim, precisava também de um cachecol, como disse, ontem à noite estava extremamente frio, foi necessário me agasalhar bem, assim, passei o Rubem Alves no pescoço, tenho 19 cachecóis dele, e o que mais gosto é o primeiro, o mais antigo, coitado já está velhinho e todo amarelado, é o "Ostra feliz não faz pérola", esquenta pra caramba, e foi um cachecol barato, porém, o melhor que tenho, o melhor de todos. A touca, coloquei Adélia Prado, só para combinar com o Rubem, não é a melhor touca que tenho, entretanto, gosto dela. 

Hoje se der tempo vou ao shopping, melhor: ao brechó, pois no shopping é muito mais caro, e eu nunca consigo comprar uma peça só, e como tenho umas gavetas ainda sobrando espaço e umas roupas que sei que vão me cair bem, eu vou lá, e quem sabe eu não traga uns três pares de sapatos da Clarice?!! eles ficam divinos no meu pé, diferentemente da Melissa, não gosto de coisas de plástico, gosto de conteúdo. Ahh...e como eu não me aguento, vou comprar mais um batom do Fernando Pessoa, desta vez não quero o discreto, quero o vermelho chamativo, e também um perfume do Machado, um de fragrância amadeirada que eu ainda não tenho, e o esmalte?? - Saramago ou Brecht? ...



26 julho, 2014

EDUARDO

- Mestiço?
- Japonês? 

Eduardo, aproximadamente 1,83m, um pouco meio sério, ficava mais na dele, mas tinha um jeito engraçado de ser, não sei se era o sorriso de lado ou se as piadas, enfim, isto já têm alguns anos, muitas coisas me chamavam a atenção nele, coisas as quais nunca disse, também não me arrependo, só me arrependo de não ter o conhecido melhor, era uma grande pessoa, é.

Tempo frio assim, como está hoje, e aquele rapaz sempre de bermuda, eu não sei o que acontecia, mas aquilo me dava mais frio ainda. Eduardo estudava pela manhã, e eu era do período noturno, no entanto, passávamos a tarde a estudar no cursinho. Logo que começamos a conversar ele me confessará que havia largado o curso de direito, estava no terceiro ano, mas se deu conta de que queria fazer educação física, contava com tanta empolgação, que eu percebia que realmente era o que ele queria, pelo menos parecia, e um ano foi suficiente para entrar na USP. 

Gostava de conversar com Edu, ele me ajudava em muitas coisas de exatas, sempre fui péssima com cálculos, enquanto que eu o ajudava com algo de literatura, geografia e história, bem...era uma dupla perfeita, ou quase, acho que quase! 

Às vezes o percebia olhando de lado, por baixo, porém, não dava para deduzir muita coisa somente com isto, eu sei lá, eu nunca fui apaixonada por ele, e penso que nem ele por mim, entretanto, alguma química acontecia, química esta que nunca soube explicar. Meus amigos sempre comentavam algo sobre a gente, e sempre tinha aquele que fazia comentários diretos bem na frente dele - eu ficava puta e ao mesmo tempo sem graça. 

Quando o percebia olhando, eu olhava também, depois desviava o olhar e ficava na minha, era engraçado, parecia um pega-pega de olhares dissimulados, Eduardo um tanto tímido, e eu, mais ainda. Ao me deparar com alguma indireta dele ou um jeito diferente, eu caia na gargalhada ou então era um pouco grossa ou estúpida, meio 8 ou 80, queria o 44, contudo...não conseguia. 

Mas...teve um dia que me marcou profundamente,não irei esquecer, Eduardo até agora em toda minha vida foi a única pessoa que sendo tão gentil em uma única frase conseguiu me quebrar as pernas, frase esta que eu tento aplicar em todos os meus relacionamentos, ou seja: com familiares, amigos e desconhecidos, embora não seja fácil, acho que é a essência.

A mesa estava lotada de material, várias apostilas, cadernos, enfim... ele havia acabado de me ajudar com alguns exercícios de matemática, sim, tinha muita sobra de borracha pela mesa, muita mesmo (risos). Pela tarde sempre comíamos alguma coisa, naquele dia eu comprei um pacote de bolacha, enquanto estava a abrir ele ficava olhando, mas era de um jeito diferente, de uma forma bem mais direta, retirei uma, ofereci, contudo, Eduardo não aceitou e continuou olhando, então eu disse:

- Que foi? ( ele baixou a cabeça e fez que nada havia acontecido).

- Você não quer mesmo nenhum biscoito? 

- Não!

- Hei...que foi? Tô falando com você!!

- Eu sei Fernanda, muito obrigado, mas eu não quero, hoje não.

- Hoje não?! mas quando é que você pega alguma coisa que eu te ofereço?

- Fernanda, obrigado, mas eu não quero, não estou com fome!

Grosseiramente respondi:

- Você nunca quer nada, não gosta de nada que eu te ofereço, não é possível!!!

- Do que é que você gosta? ou não gosta de nada???

Talvez eu quisesse saber de algo que ele gostasse para agradar ou conversar sobre, enfim, só percebi essa minha intenção muito tempo depois, porque eu não me dava conta, e o que era para ser carinhoso às vezes se tornava estúpido. E foi então que ele respondeu:

- Do que eu gosto Fernanda? ( indagou para responder, falando num tom baixo)

- "Eu gosto de educação"!!

Engoli aquilo, não tinha nem cara para olhar para ele, se pudesse eu afundava minha cabeça na mesa. Fiquei por um bom tempo pensando na tal da educação, o que era educação, o que é. Depois do ocorrido continuamos conversando nos dias e meses seguintes, no entanto, já não era a mesma coisa, me sentia um pouco mal perto dele, não por ele, mas por mim. Talvez eu estivesse contaminada ou podre por dentro, ainda que fosse o meu jeito de ser, de ter crescido em um ambiente assim, isto não me dava o direito de tacar pedras em quem nunca me ofendeu, demorei para compreender que certos comportamentos afastam as pessoas das quais gostamos, ainda que não seja intencionado.

Três anos mais tarde, perto do fim de um namoro mais do que desgastado de dois anos com um rapaz que com certeza não era o Eduardo, eu dei a mesma resposta que um dia me fez querer afundar a cabeça na mesa. No fundo a gente falta com educação com a gente mesmo quando deixa o outro sem limites nos tratar da maneira como ele acha que deve nos tratar.

As cartas de Daniel - Parte I

Feliz!! ... nunca virá Francisca tão sorridente como estava, perambulava atônita, dava pulinhos, ria à toa, pelo menos era o que parecia, mas toda aquela felicidade deveria ter uma causa, e tinha.

- Fran, o que aconteceu? vamos me conte?!!!

Sua felicidade me deixava alegre, vida sofrida não é fácil, algo de muito bom com certeza havia acontecido.

- Vamos, me diga mulher!!!

- Sabe o que é Fê, eu vi meu menino depois de muito tempo, estava com tanta saudade do meu filhote, aí... como estou contente, meu coração vai explodir de imensa alegria.

- Nossaaa, Fran...que maravilhaaaa, mas ele estava viajando?? mora em outro lugar??

Neste momento o sorriso de Francisca ficou pequeno, os seus olhos perderam certo brilho, a euforia diminui drasticamente. Abaixou a cabeça, ficou ali olhando os azulejos da parede, até que encostou na própria parede e seus olhos ficaram vermelhos e  se encheram de lágrimas:

- Fê, meu filho está preso!!!

Eu não soube como interagir com aquela afirmação, fiquei sem reação, pensei que o rapaz estivesse em algum outro lugar, qualquer outro motivo, menos esse, porque jamais se passou pela minha cabeça que ela fosse me falar isto. Fácil é ver os noticiários da tv e mães emocionadas por reencontrarem os seus filhos mesmo que atrás das grades - não sei - não que seja fácil, porém a sensação é outra, mas ali, aquela mulher na minha frente me fez ver uma realidade diferente, ter uma espécie de um contato mais próximo, entrar num outro cenário. Fiquei uns 30 segundos absorvendo a fala, segundos que se tornaram eternos pelo silêncio, ela com a cabeça meio envergada, e eu sem saber como lhe dar com a situação perguntei:

- Há quanto tempo ele está preso? o que aconteceu?

- Ah...menina, tem pouco mais de um ano, de lá pra cá as coisas mudaram bruscamente, mas o meu menino é inocente, ele é bom, tão bom que é bobo, andava em má companhia e acabou sendo pego, indiciado por tráfico de drogas e porte de arma, mas é mentira, ele saiu de casa com um pote de pipocas, tava festejando o nascimento da sobrinha, porém (numa voz desanimada contínuo a narrar), foi lá pra rodinha dos amigos nóias dele, os caras já estavam tudo cheirado, daí a polícia baixou lá e o resto você já sabe né?!!

- Ah...é Francisca? mas essa história é meio esquisita, não acha? Eu imagino que seja muito complicado lhe dar com tudo isso, mas, se ele foi indiciado por tráfico de drogas e porte de arma, alguma coisa deve ter...

- Ele é besta Fernanda, os caras da quebrada fizeram ele de idiota, se aproveitaram da situação, deram uma mochila pro Daniel segurar bem no momento que a polícia chegou.

- Sei lá Francisca, são tantas coisas, tem gente que entra mesmo de laranja na história!

- Fê, e esse negócio de arma?(questionou com os olhos arregalados e inconformados) o Daniel nem sabe atirar, nunca pegou numa arma sequer, e outra não tinha arma nenhuma, inventaram essa história pra ferrar com o meu filho. 

- Será que ele nunca pegou numa arma Francisca? Por que você acha que quiseram ferrar com o seu filho?

- Claro que nãoo!!! Ele é muito bobo, inocente demais, fuma umas às vezes e só, no entanto, acabou se ferrando dessa vez, os amigos usaram ele. 

- Bem... essa historia você pode me contar melhor depois, mas agora, quero que me conte como foi a visita, como foi vê-lo depois de tanto tempo (era preciso sair daquela cena ruim para entrar em outra talvez menos pior, ou não:"o presídio"). 

Percebi o semblante de Francisca mudar completamente, as cenas do último final de semana se traduziam em seu olhar, um sorriso esticava de mansinhos, e as mãos se juntavam, da mesma forma que se veem em esculturas de anjos, ela as aproximou perto do peito e como uma menina apaixonada de 15 anos, disse:

- Foi maravilhoso, já tinham uns meses que não o via, o dinheiro tá curto, é caro ir pra lá, é longe daqui, 12 horas de viagem, acredita?! estava com saudades do meu bebê, ele não está muito bem sabe?! Ele tem convulsões, vive tendo ataque epilético, eu ficou super preocupada, morro de medo que algo pior aconteça ao meu filho. Na última carta que me mandou, Daniel escreveu que tem dormido muito, e que escuta umas vozes ruins falando com ele, que ele deve se matar, que ele vai morrer ali. Com certeza tudo isso é consequência do péssimo ambiente junto aquela energia horrível e também tem a questão dos remédios, ele tomava apenas um gardenal por dia, contudo, o médico mudou a dosagem e agora ele toma três comprimidos diários. É muita coisa, tentei conversar com o doutor, mas não consegui. 

- Nossa Fran, é muita coisa mesmo, alterou radicalmente!

- Tome, olhe a carta que ele me escreveu... 



16 julho, 2014

O roseado do asfalto

Queria a beleza da cerejeira 
se o meu corpo fosse um tronco
e os meus braços cheios galhos
eu espalharia flores cor de rosa
pela calçada.

Seria charmosa
ousaria me abrir no inverno
não usaria botas, casacos e meias. 

Rasgaria o cinza e floresceria no frio 
seria a cor viva que brilharia nos olhos de quem me viu.

12 julho, 2014

Palestina

Na faixa de gaza tem genocídio
famílias são mortas pelo vizinho
trucidam crianças
matam o povo
para que a terra
seja dele de novo.

O terror se revela como destino
e sangue é espalhado por todo caminho.

Essa coisa de posse
é uma coisa horrível
propriedade não é para todos
território não é para o povo.

Não venha com a luta de Terra Sagrada
sob pretexto de religião
são tantos argumentos para concluir
que no final o indivíduo não é irmão.

Por isso destruímos a nós e a Nação
e a intervenção dos Estados Desunidos
sempre se dá
fornecendo armamento nuclear.

É desnecessário precaver inocentes do perigo
não importa se crianças tinham mais tardes para brincar
e nem se pais não retornam mais ao lar
porque o lar é outro cenário
hoje é terra que soterra o corpo mutilado.


POSSO ENTRAR?

As ruas ficam mais bonitas quando quero conhecê-las
e as pessoas ficam mais coloridas se  resolvo percebê-las. 

O mundo que dança lá
dança aqui
pra ver a poesia acontecer 
e anoitecer com você.
(comigo)

Os passos não precisam ser rápidos 
por mim eu pararia naquele instante sagrado de vida 
que alimenta a minha alma 
que às vezes se encontra vazia. 

Mas o estranho disse prosa 
o outro promessa 
e eu confesso que adorei 
o compromisso sem pressa.

É preciso sair para chorar
mas também é preciso sair 
para ver a graça
singela graça que toca 
e bate à porta. 

Na calçada a avenida não me desperta 
vejo sim  alegria nos bares
nos pedestres 
e nas esculturas de outras épocas
em gente que canta na esquina e comove o peito
na simpatia do desabrigado que vive sem rumo.

Eu quero é mais sentir o vento contra mim
e as folhas que caem nos acostamentos 
e gente que chega com um sorriso aberto
pois assim terno fica o meu pensamento 
que não cede espaço para o sofrimento.

Cura não é a rua 
mas os olhos que a olham quando não está nua. 

09 julho, 2014

Condição pós moderna

Rabiscos na tela sem ligação
remontam a nossa situação
arte como abstração
colagem de outra colagem
roupagem de uma ultra modernização.

Conhecimento corre
tudo escapada
tudo se cria e morre
na nossa expectativa
de projetar um futuro perto
que sempre se consome
na nossa destruição.

Perdemos a noção
se estamos aqui ou no Japão
esse universalismo fragmentado
que nos une separado
é contradição
para que tenhamos tudo
sem ter nada
um vazio que preenchemos
com nada
parcelado em 24 vezes no cartão.

Em um clique estou no Afeganistão
noutro eu viajo para as ilhas Cayman.
Em um clique eu conecto
noutro eu desconecto.
Em um clique eu compro
noutro eu vendo.
Em um clique se tem um relacionamento
noutro o rompimento.

Somos multi
personalidades
necessidades
sem sabermos o por quê.
Ontem eramos alienados
hoje somos esquizofrênicos
desconhecemos a própria realidade.

Observem a arquitetura
e as relações sociais.
Vejam a pintura
e a aplicação  das texturas.
Ouçam a música
sua batida e ausência de conteúdo.

Percebam a superficialidade
do evento em que vivemos
estampamos risos angustiados
porque somos bombardeados
velozmente por tantas informações
que roubam a nossa identidade.

Não importa o conceito se constantemente muda
em busca da verdade foi que negamos a nós mesmos
a tese de hoje será derrubada amanhã
e a de amanhã será rebatida em outro dia.

E a colonização perdura
já não mais por terra
mas pelo espaço da globalização
que não nos faz livres
e nem mais felizes
pois a sensação não mente
sabemos perfeitamente
que é oco porque é ilógico
no entanto nos tatuamos com status
vivemos na morada do ego
que nos apodrece.

Já não temos ouro para emitir tanto papel
por isso tratemos rapidamente
de comprar e comprar
para abafar uma crise bem maior
e assim tudo vai para o mercado
até o sentimento é mercantilizado
qualquer sonho é industrializado
e o sentido é não ter sentido
apenas sentir-se perdido.

"Não brilhou no céu da pátria nesse instante"

E o amor acabou
tão rápido assim
que por sete a um
eu já não sou mais do Brasil.

Lindos campos têm mais flores
boto fogo na bandeira
e quem se disse patriota
não passa de um hipócrita.

Eu sou brasileiro com muito orgulho
- será?
Já sei que culpam a educação
e com razão
mas olha só o que o comércio faz
o que ele traz
pelo lucro nos faz e desfaz
facilmente
em camisetas verde e amarelo
em frases que o povo não sente
que a história não construiu.

Amor ao Brasil pelo consumo
o Brasil é uma merda - é o que sempre escutei
mas também
o que sempre descordei.

Tá no pé
tá no gingue
tá na cor
e no esquecimento.

Ah...meu Brasil
que precisa ser descoberto
por fora de tanto imperialismo
pois que
ainda se fossemos vencedores da Copa
nos veriam derrotados
porque estamos derrotados
nas escolas e nos hospitais
nos barracos com casas que desabam
que são inundadas
na criança que sonha em ser
jogador de futebol, engenheiro, bombeiro
mas que depois quando cresce
se torna como referência
informante do traficante
o tal do aviãozinho
ou então
dono da boca, da biqueira
que com certeza vai matar ou vai morrer
com um tiro na cabeça.

E doutro lado
tem o bancário pobre
e o burguesinho.
Tem o Bradesco
e o Banco Safra
tem tanto banco
e multinacional
que só agridem
o que é nacional.

E tem gente que virá idiota
numa classe média
porque o seu poder de compra
de forma equivocada
aumenta consideravelmente
comprando a prazo.

E se tenho o meu carro
e um curso universitário
foda-se o resto
porque eu não protesto!

Eu grito: Vai ter copa sim
eu visto a camiseta do Brasil
eu vou ao estádio
e depois da goleada
me junto com os gringos da vila Madalena
pra tomar uma caipirinha
e botar fogo na bandeira.

Ah...Brasil
pra mim
pra mim...

07 julho, 2014

Cirrose

Saudades de Manoel
que adoeceu no quintal do bordel
tomando uísque e escrevendo um cordel.

Para não ficar sóbrio e não ver o próprio sombrio
Manoel engolia seco o gosto do fel
mas disfarçava como se fosse mel.

E naqueles olhos amargos
amou a tal da prostituta - Dona Céu!

Mulher dos seios fartos
cabelos coloridos - avermelhados.
Atendia o deputado
o padre e o pastor
mais o primo do coronel Nestor.

E seu Manu morria
a cada gemido que ouvia uma lágrima escorria
então outro gole ele dava pra ver se o tímpano estourava
e aquele som de repente feito caco o cegasse.

E  Dona Céu às vezes apanhava
de clientes que porque pagavam,
abusavam.

E nesta loucura um dia o álcool não segurou o Manoel
ele meteu foi o pé na porta pra matar o primo do coronel
mas o moço tava armado
e Dona Céu entrou na frente do escritor bebum
quando o gatilho foi disparado.

Direto na cabeça - o sangue escorria!

Manoel com os escritos dele numa folha de papel
agachou-se para abraçar sua amada falecida
e sabia que aquela cena se repetiria por muitas vezes nas horas do dia
pela lembrança do último respiro
da moça que ele contemplava
em todas as poesias que escrevia.

06 julho, 2014

Desfi "brilhar" dor

Ela fala do palhaço                                            
do fracasso
olhe o erro e dê um abraço.

Pois que a vida
vida passa
morre tudo
perde tudo
não acerte tanto
crie asas.

No tropeço
dê um riso
se escorrega
improvise.

Faça uma graça
para tristeza
dê uma cambalhota
que tudo passa.

Lá no hospital
a vida morre
mas o palhaço
é quem socorre.

Uma careta contagia
toma o espaço da doença
e oxigena a alegria
do paciente que talvez
só viva mais um dia.

Estação São Bento

Vi os olhos de Jesus neste sábado
aquela cruz era um carrinho cheio de sucata
sendo carregada pelas costas de um senhor
mais do que exausto.

Ali mesmo acho que ele cairia.
Ali mesmo mesmo ele seria pregado
como é todos os dias.
Condenado por um sistema
julgado por uma sociedade.

Ele apodrece
parece que ninguém vê
ou percebe.
São olhos de quem já sabe
que a morte será sofrida
porque já sofre em vida.

Suor com cheiro de sangue
fome
sede
trapo no corpo
e coração grande.