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29 agosto, 2015

Um simples imenso

A paz, o sentimento bom em matar o cansaço na cama, o frio no cobertor. Os problemas se afastam por um curto momento, porque a questão maior é o descanso quando o corpo já não aguenta e os olhos insistentemente se fecham. 

A paz, o sentimento bom no banho, na limpeza corporal, na tranquilidade das águas, no som do chuveiro, nas impurezas que escorrem, das energias que encontramos, daquilo que descarregamos, dos pensamentos que melhoram - pelo menos os meus. 

A paz, o sentimento bom no cheiro da comida de nossas mães, do tempero do feijão, do molho do macarrão, do doce na boca, do gosto, da repetição da sobremesa, do suco fresco, da comida quente, de saciar a fome e ao mesmo tempo ser feliz no paladar. 

A paz, o sentimento bom de uma tarde, de uma rede, de uma paisagem, de uma noite, de contemplar o mar, de um céu bonito, de uma lua cheia, de uma conversa prazerosa, de um passeio, de uma música, de uma leitura, de deitar na grama, de esquecer algumas coisas. 

A paz, o sentimento bom de abrir mão de qualquer disputa, de se declarar perdedor para ser livre, de se declarar qualquer coisa, de fazer as malas, de seguir outros caminhos, de ver outras coisas, de conhecer novas pessoas, de ter outros papos e de também calar, de silenciar, de se conhecer melhor. 

A paz, o sentimento bom de certas poesias, do som da flauta, de certas notas que se tocam num piano, de algumas pinturas que transmitem calmaria, da arte serena. 

A paz, o sentimento bom da simplicidade, de não precisar de muita coisa, de sentir o que temos, o que experimentamos, as sensações que nos deixam leves e por um tempo satisfeitos. 

23 agosto, 2015

Uma passagem de Frida: a bailarina destroçada

Quisera ser a bailarina
sonhou em ser o que não podia
mas mesmo assim a vida que ardia
não fez de Frida desistir da dança
queria ouvir "olha a dançarina"
ousar o palco – usar
ouvir os aplausos
porém isso ela não teria
resistiu e depois ...
desistiu.


Fora num acidente
em que a barra de ferro
entrou pelo seu quadril 
e saiu pela sua vagina
naquele bonde tinha uma rapaz
com uma sacola cheia de pó dourado
e no desastre o pó subiu 
e aos poucos caiu 
no corpo da moça Kahlo.

E aquele corpo virou uma arte
e as pessoas gritavam olha a bailarina
toda ensanguentada
Frida ouviu
e em dor e delírios sorriu
naquela tragédia
em poucos minutos
um corpo quebrado
se transformou numa dançarina
reconhecida como queria.



22 agosto, 2015

HERBERT

Escuto o nome e me vem Paralamas, mas essa história não tem nada de Herbert Vianna e muito menos de Herbert Richers. 

Sentado no chão, encostado em uma coluna de concreto – ali está Herbert ou Erbert ou mais algum outro jeito de escrever esse nome. Pouco mais de 30 anos, não sei se chega aos 35, enfim, teria ele uma família?

Há meses estava no mesmo lugar, antes existia também a Maria, que sempre vestia um moletom vinho e muito sujo, mas praticamente não dava para conversar com aquele senhora,  devido tamanha agressividade, necessitava de tratamento urgentemente, era o psicológico e o espiritual em um tamanho abalo, a diferença é que a família sempre vinha buscá-la segundo a faxineira do banheiro feminino.

O rapaz me chamará atenção, a forma como ele olhava as coisas, as pombas, as plantas, os próprios pés e as mãos, e naquele ambiente tanta gente que chega e vai, gente que passa e um imenso vazio, uma frieza, as pessoas não enxergam nem pomba, nem pés e mãos, não percebem o outro, somente os sapatos e  promoções coladas em paredes do metro, no vagão, ou então estão preocupadas em chegar ao trabalho no horário - no bendito horário - ou se ao contrário, em retornar logo para a casa com o fone no ouvido, fone quase que maior do que a própria cabeça.

Certo dia o vi admirando as árvores e acariciando as folhas, e conversando e conversando com elas, e contemplando aquela amiga bela de pouco mais de 2 metros e cheia de flores roxas, realmente linda!
Mas ele precisava conversar com outros, descobri que sua família não o queria, não se importava, até mulher ele tinha, se o que contará era verdade eu não sabia, no entanto, muitas vezes a realidade é cruel.

O moço gosta de desenhar e às vezes escreve, antes era no papelão, agora é na sulfite, no lápis de cor. Dia desses o vi nas escadas, ele ficará ali com os olhos escancarados olhando para as pessoas, e elas subiam e desciam e elas subiam e desciam e subiam e desciam, mas ninguém percebia aqueles olhos escancarados, eram janelas abertas dizendo: - entrem, eu vejo vocês e vocês não me notam?!


Eu me sentia uma câmera que às vezes falava com a personagem principal. 





21 agosto, 2015

" Eletrodomésticos, sucos e sentimentos"


Poupe a polpa do nosso amor
tire a roupa do seca-dor.

Destranque o cadeado
pule o cercado
deixe o ventila-dor te dizer
que nem tudo está parado
como relógio quebrado.

E o tempo é descobri-dor
deste liquidifica-dor
empoeirado
que vai bater
o que solidificou a dor
para que se possa apalpar
a polpa do nosso amor.

20 agosto, 2015

O criminoso

Se na esquina tem um "negrinho"
o policial para
logo diz que é bandido
estuprador ou traficante
logo desce o cassetete
ou então mete bala.

Essa cultura impregnada
de racismo
diz que o negro da esquina
da senzala ou da favela
é assaltante e homicida
mas quem comete a chacina
é a Rota
a própria polícia.

19 agosto, 2015

Sobre frutas

Barba da casca de kiwi
língua de morango
no gosto de manga
olhos de jabuticaba
boca feito fatia de melancia
rosto com o formato da pera
no cheiro de maracujá
pele de pêssego
orelha de nectarina
nariz de framboesa
cabelo do cacho de uva
já o coração era diferente
desenho de carambola cortada
uma estrela.

NÃO INSISTE QUE EU TE DENUNCIO


Não bastava defender o movimento feminista, deveria de ser o "feminismo marxista–leninista"- na verdade, ele não entenderá nada sobre a emancipação da mulher, apenas adotou essa defesa em específico por conta da obsessão por Marx, somente – sua oratória era impecável e os seus textos uma arma a citar grandes feministas que realmente estavam incumbidas com o processo da liberdade humana, no entanto, este camarada de fato não lutará contra a opressão, ao contrário, ele era o opressor.

Embora ele alimentasse o discurso de igualdade de direitos, a mulher em seu íntimo deveria ser aquele ser indefeso, para que ele, o herói, a salvasse de todos e de tudo, para isso era preciso uma moça sem voz, alguém que necessitasse de um ser forte por ela ser incapaz. Também não seria possível ter uma condição financeira um pouco melhor do que a dele, pois isso representaria humilhá-lo gratuitamente, portanto, qualquer convite se transformava em guerra.


A companheira deveria se submeter aos seus caprichos, deveria servi-lo e se possível sempre no quarto em um fetiche de puta, mas por que  s e m p r e  o fetiche da puta? Obviamente eu questionava a insistência desta figura. Eu já havia entendido, porém eu perguntava, queria ir mais a fundo, mostrar se teoria e prática realmente se casavam, seria um processo de reflexão, todavia, ele não se permitia, somente encenava uma postura fora do quarto, ele vestia a sua máscara, e eu de alguma forma a tirava - foi o fim.

18 agosto, 2015

Amora

O meu amor é uma amora
amora de amara
pra variar estou perdida
entre a partida
e a chegada
pendurado nas árvores
estão os frutos
que ora nos furtam
que em outrora eu furto
fico escondida
olho pelo muro
até que eu possa
pegar a fruta.

17 agosto, 2015

Muito além

Quando não estou em mim
sou o som da chuva
a grama molhada
o pássaro que canta
a flor que se abre.

Quando não estou em mim
sou totalmente natureza
sou totalmente outra beleza
que o pobre homem
pouco sabe sentir.

Eu vivo no mar
eu voo ao sol
estou nas montanhas
e em qualquer lugar
nos bichos
nas plantas
no olhar da criança
na semente que brota
na terra que sangra.


Lembramos: pernas cansadas

A gente acha que não passa
a gente chora
mas depois de um tempo
achamos graça
fica na memória.

Madrugada
caminhada naquela avenida
elitizada
e por incrível que pareça
naquele dia
não tinha bar,
não tinha boteco aberto
só ela e eu
naquela desgraça
sentada na escadaria do prédio gazeta
sem álcool, sem água, sem nada
exceto com prosa e muita raiva.


Hoje, apenas risadas!

12 agosto, 2015

Não percamos a doçura por conta
da amargura de outros.

Não façamos de nossas vidas
um cenário escuro
que mutila todo dia
o próprio corpo
e que cospe fogo no outro
até chegar no fundo do poço.

Se cada um dá o que tem
aceite apenas o que lhe convém,
aquilo que lhe fizer bem.

Vejo sim

Não me conte margarida
que vai se jogar da ponte
por não ser querida.

Meu bem
se ele não te faz preferida
saiba que eu posso te fazer linda.

Neste mal me quer
e bem me quer
vejo a construção de feridas
um coração partido
será que tu não vês
que eu sou teu pretendido?