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26 julho, 2014

EDUARDO

- Mestiço?
- Japonês? 

Eduardo, aproximadamente 1,83m, um pouco meio sério, ficava mais na dele, mas tinha um jeito engraçado de ser, não sei se era o sorriso de lado ou se as piadas, enfim, isto já têm alguns anos, muitas coisas me chamavam a atenção nele, coisas as quais nunca disse, também não me arrependo, só me arrependo de não ter o conhecido melhor, era uma grande pessoa, é.

Tempo frio assim, como está hoje, e aquele rapaz sempre de bermuda, eu não sei o que acontecia, mas aquilo me dava mais frio ainda. Eduardo estudava pela manhã, e eu era do período noturno, no entanto, passávamos a tarde a estudar no cursinho. Logo que começamos a conversar ele me confessará que havia largado o curso de direito, estava no terceiro ano, mas se deu conta de que queria fazer educação física, contava com tanta empolgação, que eu percebia que realmente era o que ele queria, pelo menos parecia, e um ano foi suficiente para entrar na USP. 

Gostava de conversar com Edu, ele me ajudava em muitas coisas de exatas, sempre fui péssima com cálculos, enquanto que eu o ajudava com algo de literatura, geografia e história, bem...era uma dupla perfeita, ou quase, acho que quase! 

Às vezes o percebia olhando de lado, por baixo, porém, não dava para deduzir muita coisa somente com isto, eu sei lá, eu nunca fui apaixonada por ele, e penso que nem ele por mim, entretanto, alguma química acontecia, química esta que nunca soube explicar. Meus amigos sempre comentavam algo sobre a gente, e sempre tinha aquele que fazia comentários diretos bem na frente dele - eu ficava puta e ao mesmo tempo sem graça. 

Quando o percebia olhando, eu olhava também, depois desviava o olhar e ficava na minha, era engraçado, parecia um pega-pega de olhares dissimulados, Eduardo um tanto tímido, e eu, mais ainda. Ao me deparar com alguma indireta dele ou um jeito diferente, eu caia na gargalhada ou então era um pouco grossa ou estúpida, meio 8 ou 80, queria o 44, contudo...não conseguia. 

Mas...teve um dia que me marcou profundamente,não irei esquecer, Eduardo até agora em toda minha vida foi a única pessoa que sendo tão gentil em uma única frase conseguiu me quebrar as pernas, frase esta que eu tento aplicar em todos os meus relacionamentos, ou seja: com familiares, amigos e desconhecidos, embora não seja fácil, acho que é a essência.

A mesa estava lotada de material, várias apostilas, cadernos, enfim... ele havia acabado de me ajudar com alguns exercícios de matemática, sim, tinha muita sobra de borracha pela mesa, muita mesmo (risos). Pela tarde sempre comíamos alguma coisa, naquele dia eu comprei um pacote de bolacha, enquanto estava a abrir ele ficava olhando, mas era de um jeito diferente, de uma forma bem mais direta, retirei uma, ofereci, contudo, Eduardo não aceitou e continuou olhando, então eu disse:

- Que foi? ( ele baixou a cabeça e fez que nada havia acontecido).

- Você não quer mesmo nenhum biscoito? 

- Não!

- Hei...que foi? Tô falando com você!!

- Eu sei Fernanda, muito obrigado, mas eu não quero, hoje não.

- Hoje não?! mas quando é que você pega alguma coisa que eu te ofereço?

- Fernanda, obrigado, mas eu não quero, não estou com fome!

Grosseiramente respondi:

- Você nunca quer nada, não gosta de nada que eu te ofereço, não é possível!!!

- Do que é que você gosta? ou não gosta de nada???

Talvez eu quisesse saber de algo que ele gostasse para agradar ou conversar sobre, enfim, só percebi essa minha intenção muito tempo depois, porque eu não me dava conta, e o que era para ser carinhoso às vezes se tornava estúpido. E foi então que ele respondeu:

- Do que eu gosto Fernanda? ( indagou para responder, falando num tom baixo)

- "Eu gosto de educação"!!

Engoli aquilo, não tinha nem cara para olhar para ele, se pudesse eu afundava minha cabeça na mesa. Fiquei por um bom tempo pensando na tal da educação, o que era educação, o que é. Depois do ocorrido continuamos conversando nos dias e meses seguintes, no entanto, já não era a mesma coisa, me sentia um pouco mal perto dele, não por ele, mas por mim. Talvez eu estivesse contaminada ou podre por dentro, ainda que fosse o meu jeito de ser, de ter crescido em um ambiente assim, isto não me dava o direito de tacar pedras em quem nunca me ofendeu, demorei para compreender que certos comportamentos afastam as pessoas das quais gostamos, ainda que não seja intencionado.

Três anos mais tarde, perto do fim de um namoro mais do que desgastado de dois anos com um rapaz que com certeza não era o Eduardo, eu dei a mesma resposta que um dia me fez querer afundar a cabeça na mesa. No fundo a gente falta com educação com a gente mesmo quando deixa o outro sem limites nos tratar da maneira como ele acha que deve nos tratar.

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