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26 julho, 2014

As cartas de Daniel - Parte I

Feliz!! ... nunca virá Francisca tão sorridente como estava, perambulava atônita, dava pulinhos, ria à toa, pelo menos era o que parecia, mas toda aquela felicidade deveria ter uma causa, e tinha.

- Fran, o que aconteceu? vamos me conte?!!!

Sua felicidade me deixava alegre, vida sofrida não é fácil, algo de muito bom com certeza havia acontecido.

- Vamos, me diga mulher!!!

- Sabe o que é Fê, eu vi meu menino depois de muito tempo, estava com tanta saudade do meu filhote, aí... como estou contente, meu coração vai explodir de imensa alegria.

- Nossaaa, Fran...que maravilhaaaa, mas ele estava viajando?? mora em outro lugar??

Neste momento o sorriso de Francisca ficou pequeno, os seus olhos perderam certo brilho, a euforia diminui drasticamente. Abaixou a cabeça, ficou ali olhando os azulejos da parede, até que encostou na própria parede e seus olhos ficaram vermelhos e  se encheram de lágrimas:

- Fê, meu filho está preso!!!

Eu não soube como interagir com aquela afirmação, fiquei sem reação, pensei que o rapaz estivesse em algum outro lugar, qualquer outro motivo, menos esse, porque jamais se passou pela minha cabeça que ela fosse me falar isto. Fácil é ver os noticiários da tv e mães emocionadas por reencontrarem os seus filhos mesmo que atrás das grades - não sei - não que seja fácil, porém a sensação é outra, mas ali, aquela mulher na minha frente me fez ver uma realidade diferente, ter uma espécie de um contato mais próximo, entrar num outro cenário. Fiquei uns 30 segundos absorvendo a fala, segundos que se tornaram eternos pelo silêncio, ela com a cabeça meio envergada, e eu sem saber como lhe dar com a situação perguntei:

- Há quanto tempo ele está preso? o que aconteceu?

- Ah...menina, tem pouco mais de um ano, de lá pra cá as coisas mudaram bruscamente, mas o meu menino é inocente, ele é bom, tão bom que é bobo, andava em má companhia e acabou sendo pego, indiciado por tráfico de drogas e porte de arma, mas é mentira, ele saiu de casa com um pote de pipocas, tava festejando o nascimento da sobrinha, porém (numa voz desanimada contínuo a narrar), foi lá pra rodinha dos amigos nóias dele, os caras já estavam tudo cheirado, daí a polícia baixou lá e o resto você já sabe né?!!

- Ah...é Francisca? mas essa história é meio esquisita, não acha? Eu imagino que seja muito complicado lhe dar com tudo isso, mas, se ele foi indiciado por tráfico de drogas e porte de arma, alguma coisa deve ter...

- Ele é besta Fernanda, os caras da quebrada fizeram ele de idiota, se aproveitaram da situação, deram uma mochila pro Daniel segurar bem no momento que a polícia chegou.

- Sei lá Francisca, são tantas coisas, tem gente que entra mesmo de laranja na história!

- Fê, e esse negócio de arma?(questionou com os olhos arregalados e inconformados) o Daniel nem sabe atirar, nunca pegou numa arma sequer, e outra não tinha arma nenhuma, inventaram essa história pra ferrar com o meu filho. 

- Será que ele nunca pegou numa arma Francisca? Por que você acha que quiseram ferrar com o seu filho?

- Claro que nãoo!!! Ele é muito bobo, inocente demais, fuma umas às vezes e só, no entanto, acabou se ferrando dessa vez, os amigos usaram ele. 

- Bem... essa historia você pode me contar melhor depois, mas agora, quero que me conte como foi a visita, como foi vê-lo depois de tanto tempo (era preciso sair daquela cena ruim para entrar em outra talvez menos pior, ou não:"o presídio"). 

Percebi o semblante de Francisca mudar completamente, as cenas do último final de semana se traduziam em seu olhar, um sorriso esticava de mansinhos, e as mãos se juntavam, da mesma forma que se veem em esculturas de anjos, ela as aproximou perto do peito e como uma menina apaixonada de 15 anos, disse:

- Foi maravilhoso, já tinham uns meses que não o via, o dinheiro tá curto, é caro ir pra lá, é longe daqui, 12 horas de viagem, acredita?! estava com saudades do meu bebê, ele não está muito bem sabe?! Ele tem convulsões, vive tendo ataque epilético, eu ficou super preocupada, morro de medo que algo pior aconteça ao meu filho. Na última carta que me mandou, Daniel escreveu que tem dormido muito, e que escuta umas vozes ruins falando com ele, que ele deve se matar, que ele vai morrer ali. Com certeza tudo isso é consequência do péssimo ambiente junto aquela energia horrível e também tem a questão dos remédios, ele tomava apenas um gardenal por dia, contudo, o médico mudou a dosagem e agora ele toma três comprimidos diários. É muita coisa, tentei conversar com o doutor, mas não consegui. 

- Nossa Fran, é muita coisa mesmo, alterou radicalmente!

- Tome, olhe a carta que ele me escreveu... 



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