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26 julho, 2012

MEDO


O tiro que saiu do outro lado da parede
Atravessou meu travesseiro  .

O dia inteiro
A noite ria
Eu não dormia mesmo rezando Ave- Maria
Era fogo , era palha
Tudo espalhava
O disparo despertava
Destrambelhava
Uma tala de madeira para os olhos que não pregavam
Eu corria pelos corredores do meu silêncio
E escondia os gritos de inocência .

O tiro que saiu do outro lado da parede
Atravessou meu travesseiro  .

Os sons reprisavam aos ouvidos
Vontades colocadas em pedidos
A  corda que não aguentou este balanço
Quebrou porque estava velha e repartida
Fumaças conversam com neblinas
Para nascer no coração o susto desta interpretação :

O tiro que saiu do outro lado da parede
Atravessou meu travesseiro .

ARTIGO EU


Eu não quero civil
Eu não quero processo                  
Quero história

Eu não quero lei
Eu não quero ordem
Quero memórias

Eu não quero gramática
Eu não quero oratória
Quero literatura

Eu não quero Estado
Eu não quero governo
Quero verdades

Eu não quero manipulações
Eu não quero jogo
Quero liberdade

Eu não quero fachadas
Eu não quero concordar
Quero dúvidas

Eu não quero ser com sentido
Eu não quero fazer por obrigação
Quero ficar e pensar

Eu não quero isto para mim
Eu não quero um visto
Quero voar.



POROROCA


O poeta é um atleta
Que nada contra a correnteza
Para desovar toda a beleza
A água leva feito enchente
E muda o pensamento dessa gente
Letras exprimidas saem da nascente
E palavras competem para chegar na frente
O percurso do rio
É um recurso que limpa o pueril
A desembocar em mar doce
De amargos rios
Porque boiam pelas ideias de escritores
Que transformam amores e rancores
Na força dum mergulho profundo
Entre alma e corpo
Na solução de explicação
Ousam as frases do refrão
Para questionarem orações
Em mar aberto de construções.

CONFLITOS


Os por quês que a vida dá
São voltas que eu não sei explicar
Marmotas dizem para eu continuar
O que falar ?
A ciência não  traduz o meu questionar
Escrevo para matar na mente
Tudo o que sente
Nunca fica ausente
Quanto mais insisto pela escrita
Mais defeito encontro nesta marmita
Que consumo todos os dias
Mas não é comida
É outro tipo de alimento
Que engorda
E sempre me deixa com mais fome ainda
Porém isso , eu não sei explicar.

18 julho, 2012

MOVIMENTOS


A música é um conc(s)erto que se transforma na alma.
Canta os pensamentos sem termos contado para ela os nossos momentos.
Os ritmos acompanham a frequência que bate no peito.
Como adivinhar segredos?

É talento compor.
É magia descrever.

Criar som para as palavras e acordes já existentes .
As misturas revelam e se revertem em passagens e paisagens.

"VAI EMBORA"


Não quero aspirar-te.
Quero espirar-te .
Não é expirar é espirar !
Um vírus. 
Uma gripe. 
Qualquer coisa que desanima.
Ficar na cama e pensar em você é febre na certa . Banhos não resolvem .
O farmacêutico disse que vitamina C curaria . O médico pediu a vacina .
E eu vacilo .
Esse ar de doença já ultrapassou o tempo. 
As bulas de remédio informam as manifestações . E quando ingiro os medicamentos sofro contraindicações.
Será que isto irá sair daqui ?

REFLEXOS E REFLEXÕES


Vitral na janela
Reflexos na calçada
A luz do sol trespassava
A vibrar em cores os olhares
Nem cadeado trancava
O que acontecia vivia
A vidraça quebrava
E sentimentos espalhavam
A dor fugia
E caminhos iluminavam
Feito os cacos - pedaços de vidas
Que abraçavam feridas cicatrizadas
Para contagiarem momentos entrelaçados
Ao calor do instante daquele destino .

AMAR-GO


Querubim queria-lhe
Flor de jasmim trazia-lhe
Para namorar com Carmim ele escrevia
Para tocá-la ele morria
Linda moça dizia
Que compadecia dos sentimentos dele
E não os correspondia
Pois um é pena
O outro amor
Ele tentou
Ela não foi
Ele procurou
Ela fugiu
Por que buscar a dó para viver em desilusão ?
Relação sem solução não é união .

CONFUSÕES


Um sol frio
Uma garoa quente
Como saber o que se sente?
A flor se abre sem as pétalas
O dia amanhece sem o céu
Parece vazio o que eu fazia
E pela tarde eu sentia o sangue a passar pelas veias entupidas
A causar pressão sem compreensão-compressão
Fiquei enrolada no barbante
Com a sensação de cerol
Cortava sem deixar cortes
E eu não entendia
Quando gritei a voz que saia explodia dentro de mim
Mas ninguém escutou
Confundi-me por não saber quem eu sou
Falei o que calava
Ouvi o que chamava
Até o anoitecer das horas .

NÚMERO 35/36


Eram sapatos que apertavam 
Espaços que sobravam 
Porém nenhum deles eram para os meus pés .

Uns claros , outros escuros 
Alguns bonitos , outros feios 
Altos , baixos , com cadarços 
Elegantes e simples 
Abertos e fechados 
Caros e baratos .

Território pequeno esmaga os dedos 
Território grande deixa livre demais .

Não adiantava algodão porque não prendia naturalmente 
Não adiantava álcool porque não iria lacear naturalmente
O sapateiro até conseguiria , mas transformaria algo que não era para mim .

Leva tempo para entender as formas que formam naturalmente as nossas vidas.

12 julho, 2012

CÂNCER


Não prenda os cabelos porque os fios irão cair
Deixe-os
Solte  todos até  não sobrar  mais nenhum
A beleza encontrada em ti transborda qualquer outra beleza
Uma lágrima de tua face não merece tristeza
Depois de medicado o interior da alma
Os demais remédios são apenas auxílios
O cansaço faz deitar o corpo
As mágoas viram feridas
E pensamentos tornam-se doenças
Da mesma forma que o veneno tem a cura
A solução está neste caminho
Enfrentar problemas é pedir para conhecer a realidade
Cirurgias devem ser feitas para arrancarem caroços estragados
O combate é doloroso
Mas quem foi que disse que seria fácil ?
Andar descalço sobre as pedras machucam os pés
Porém a insistência leva-nos até a grama – verde e fresca
Que venha a chuva
Porque dela precisamos
Algumas coisas não têm explicações
E outras  possuem sentido
Contudo ainda assim vivemos .

11 julho, 2012

CICLO


O que tem que ser enxergado é escrito
O que tem que ser escrito é escondido
O que tem que ser escondido ameaça
O que tem que ser ameaçado revela-se
O que é revelado perde-se .

O que está perdido não tem jeito
O que não tem jeito não conforma-se
O que não conforma frustra-se
O que frustra morre
O que morre desaparece .

O que desaparece deixa lembranças
O que deixa lembranças conta histórias
O que conta histórias revive
O que revive lamenta
O que lamenta chora .

O que chora recorda
O que recorda mostra-se
O que mostra sente
O que sente finge
O que finge engana .

O que engana não entende
O que não entende não percebe
O que não percebe descarece
O que descarece esquece
O que esquece enterra-se .

"E o que enterra-se vira adubo , para quem sabe nascer outra vez".